
Saudades sempre, Syd Barrett.
O rock lhe deve uma conta.
Volte logo!

Saudades sempre, Syd Barrett.
O rock lhe deve uma conta.
Volte logo!
Se era pra ser assim,
devia ter me avisado, devia ter me contado que o azul
era na verdade lilás
e que as borboletas um dia voltarão a ser lagartas.
Não tem perdão esta invasão bárbara
nas terras já devastadas do meu pobre e cansado coração.
Já vi este filme.
Eu morro no final.
E quando os créditos estão descendo a ladeira da solidão da sala de projeção,
sempre há alguém que lê a trilha sonora,
finge gostar e avança sobre meu vulto
inquieto e carente
E vai-se a minha paz tumular
Renasço da cinzas mais uma vez
E sabendo que morrerei sempre de desengano
Abro as cortinas da janela
e recebo mais um bem-querer que vai me
maltratar, machucar e levar um pouco de mim
por aí...
albanegromonte

Canção
O peso do mundo
é o amor.
Sob o fardo
da solidão,
sob o fardo
da insatisfação
o peso
o peso que carregamos
é o amor.
Quem poderia negá-lo?
Em sonhos
nos toca
o corpo,
em pensamentos
constrói
um milagre,
na imaginação
aflige-se
até tornar-se
humano -
sai para fora do coração
ardendo de pureza -
pois o fardo da vida
é o amor,
mas nós carregamos o peso
cansados
e assim temos que descansar
nos braços do amor
finalmente
temos que descansar nos braços
do amor.
Nenhum descanso
sem amor,
nenhum sono
sem sonhos
de amor -
quer esteja eu louco ou frio,
obcecado por anjos
ou por máquinas,
o último desejo
é o amor
- não pode ser amargo
não pode ser negado
não pode ser contigo
quando negado:
o peso é demasiado
- deve dar-se
sem nada de volta
assim como o pensamento
é dado
na solidão
em toda a excelência
do seu excesso.
Os corpos quentes
brilham juntos
na escuridão,
a mão se move
para o centro
da carne,
a pele treme
na felicidade
e a alma sobe
feliz até o olho -
sim, sim,
é isso que
eu queria,
eu sempre quis,
eu sempre quis
voltar
ao corpo
em que nasci.

Meu Deus, me dê a coragem
Clarice Lispector
Meu Deus, me dê a coragem
de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites,
todos vazios de Tua presença.
Me dê a coragem de considerar esse vazio
como uma plenitude.
Faça com que eu seja a Tua amante humilde,
entrelaçada a Ti em êxtase.
Faça com que eu possa falar
com este vazio tremendo
e receber como resposta
o amor materno que nutre e embala.
Faça com que eu tenha a coragem de Te amar,
sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo.
Faça com que a solidão não me destrua.
Faça com que minha solidão me sirva de companhia.
Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar.
Faça com que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo.
Receba em teus braços
o meu pecado de pensar.

ph EBarrox
Como é por dentro outra pessoa
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.
Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição de qualquer semelhança
No fundo.
Fernando Pessoa
Poema de Sete Faces
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.
O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.
O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.
Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus,
se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
Desalento entre instantes de sorrir.
Espinho moderado na garganta que esfola mas não mata. Gato com rato na boca (já viu?), parece que brinca com a vítima, mas olhando bem é tortura que aprisiona, solta, empurra, traz para si, afasta, morde, mastiga, sopra, descansa, olha de novo, pega, tritura e enfim dá o suspiro com olhos virados para o céu, e misericórdia de deuses desconhecidos, a patada final que apaga a última estrela de diamante que brilhava no olhar do rato agora purificado.
O gato era quem o rato amava e não sabia, em sua pureza dos que mal nasceram, mal desconfiando que ele, o rato, era a presa; e o gato, na essência natural das leis que regem a natureza, o predador.
Descansa agora o gato, deitado em almofadas de cetim, lambendo pêlos, esperando a próxima entrada.
O rato perdido entre cometas suicidas e densas florestas de musgo e magnólias descoloridas, ainda sofre e chora a perda do amor.
albanegromonte

abandonado assim nos meus braços, ele diz que volta. acordado, sai devagar e delicado como quem pisa num coração. surto de ternura, e ele cobre meu corpo nu, dá comida pro gato, e se vai. meio da noite ou meia-noite? tanto faz, se o que importa mesmo é que ele não estará comigo quando o sol invadir o meu quarto, queimando minha perna que insiste em sair do lençol, queimando as lembranças todas da noite e secando a lágrima tola que me abre os olhos todas as manhãs. mas chega a noite, e eu nunca acredito no que vi.
albanegromonte
alegria essa que me dá
o som do teu sorriso atravessando o oceano caindo no tapete do meu quarto
vem com ele,
teu olhar enviesado
o traço dos teus lábios encantados
a impressão do teu abraço ainda não sentido
-só pressentido-
através das ondas da praia que vão da minha casa pra tua,
do meu bem-querer pro teu coração
da nossa espera
incansável espera de nós dois
(agora vai!)
por este nosso grande amor
albanegromonte

Flor em brasa queima a folha. Serena folha que não sabia dos calores que se davam nessas horas. Língua farta onde se farta de seiva doce e macia. Onda de desejo vendaval de cores e sonhos nunca planejados. Ela. Em pele, carne e osso, sobre seu corpo mais carne que quando não era batizada. Pecado extremo, que deus nenhum há de perdoar. Vigia da porta do inferno chama em canções medievais - venha... solte as amarras que a prendem... Cabelos se enrodilham em pêlos curtos e os seios duros e tensos se encontram em harmonia.Sintonia, sinfonia de quereres e arderes em claves de Mi e Sol. Sol que esfria ao vê-la em agonia de não temer o que deve... Escultura viva em meio ao desatino que é sempre ver o que não se quer, o que não se quis, o que não se acreditou ser capaz de existir... e ela existe. E dentro de você ela roda, que nem pião em mão de menino abençoado. Ela deita com você e acorda seus sonhos de mulher pacata, trazendo suores e prazeres, dando-lhe a mão que simboliza o tudo. E tudo é ela. Ela que se invade de luzes, calores e dores. Ela que quer sair do seu sonho, para viver em você no dia que amanhece através da cortina puída do que você quis ser um dia. Ela é você ontem, quando a dureza da vida engatava rés e primeiras avançando sinais e conceitos. Ela existe e mora ao lado da sua alma envelhecida pelos nãos que a vida lhe deu. Ela é o fim e começo de tudo. Dê-lhe a sua mão e todo sim será seu. E ele não terá mais vez neste sofrer em vão.
albanegromonte
Amor sempre e quando Amor
que com suas garras afiadas multiplica a dor
Retorna à minha caótica mente
Dobra-me os joelhos do lado do coração
Torna-me pavio humano a queimar seu fogo interminável
Amor sempre e quando Amor
que brota da pele, entra pela veia...
Vem com seus laços e me prende de novo à vida
Quero mais uma vez o gosto de ser
Sentir saudades, refletir nos olhos o caleidoscópio do seu arco-íris.
Amor sempre e quando Amor
A romper barreiras, quebrar vidraças, desequilibrar razões
Toma de mim os estilhaços da alma cansada
Refaz-me a humanidade
Toca com suas asas mágicas os meus pés tão presos à Terra
Volteia-me cabeça, ombros e tudo o mais
Cansei de carregar tanto vazio.
Amor sempre e quando Amor
A me inspirar poéticas, a me fazer sorrir de nada...
Habita este coração que já foi seu.
Quero que vá comigo à festa, à farra, à cama
Quero contar-lhe pros amigos
Quero vagar em suas dores anexas.
Beber o deserto sabor no cálice de prata
Quero o anel no dedo da alma
E pertencer à vida.
Quero escrever um livro
Ter um filho
Plantar um pé de você-perfeito
E depois, só depois
morrer ...
albanegromonte

Não sei quem sou, que alma tenho.
Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo. Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe (se é esses outros).
Sinto crenças que não tenho. Enlevam-me ânsias que repudio. A minha perpétua atenção sobre mim perpetuamente me ponta traições de alma a um caráter que talvez eu não tenha, nem ela julga que eu tenha.
Sinto-me múltiplo. Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas.
Como o panteísta se sente árvore [?] e até a flor, eu sinto-me vários seres. Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente, como se o meu ser participasse de todos os homens, incompletamente de cada [?], por uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço.
Fernando Pessoa

“Minha vida começa num vergel colorido, por onde as noites eram só de luar e estrelas.
…aprendi com as primaveras a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira."
Estrela perigosa
Rosto ao vento
Marulho e silêncio
leve porcelana
templo submerso
trigo e vinho
tristeza de coisa vivida
árvores já floresceram
o sal trazido pelo vento
conhecimento por encantação
esqueleto de idéias
ora pro nobis
Decompor a luz
mistério de estrelas
paixão pela exatidão
caça aos vagalumes.
Vagalume é como orvalho
Diálogos que disfarçam conflitos por explodir
Ela pode ser venenosa como às vezes o cogumelo é.
No obscuro erotismo de vida cheia
nodosas raízes.
Missa negra, feiticeiros.
Na proximidade de fontes,
lagos e cachoeiras
braços e pernas e olhos,
todos mortos se misturam e clamam por vida.
Sinto a falta dele
como se me faltasse um dente na frente:
excrucitante.
Que medo alegre,
o de te esperar.
Clarice Lispector


houve um dia.
não era Outono. era Outubro.
eu na cama, penteando os cabelos, desavergonhadamente nua, como se fosse comum entre nós.
me vi deitada sobre lençóis azuis&laranjas
janelas fechadas
abajour aceso
incenso no ar
e no vazio etéreo da minha imaginação de louca
vi Antonioni dirigindo a clássica cena
onde a câmera é a retina do homem.
mas eu não estava de saia azul.
e ele não ficou comigo.
albanegromonte
De vez em quando tropeça-se em fragmentos de uma beleza extraordinária.
Vejam só este trecho retirado do Libro de las Preguntas, de Neruda:
Dónde está el niño que yo fui,
Sigue adentro de mí o se fue?
Sabe que no lo quise nunca
Y tampoco me quería?
Por qué anduvimos tanto tiempo
Creciendo para separarnos?
Por qué no morimos los dos
Cuando mi infancia se murió?
Y si el alma se me cayó
Por qué me sigue el esqueleto?

Um cronópio pequenino procurava a chave da porta da rua na mesa-de-cabeceira, a mesa-de-cabeceira no quarto, o quarto na casa, a casa na rua. Aqui parava o cronópio, porque para sair para a rua precisava da chave da porta.
Julio Cortázar

Canção de Amor da Jovem Louca
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro
Ergo as pálpebras e tudo volta a renascer
(Acho que te criei no interior da minha mente)
Saem valsando as estrelas, vermelhas e azuis,
Entra a galope a arbitrária escuridão:
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.
Enfeitiçaste-me, em sonhos, para a cama,
Cantaste-me para a loucura; beijaste-me para a insanidade.
(Acho que te criei no interior de minha mente)
Tomba Deus das alturas; abranda-se o fogo do inferno:
Retiram-se os serafins e os homens de Satã:
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.
Imaginei que voltarias como prometeste
Envelheço, porém, e esqueço-me do teu nome.
(Acho que te criei no interior de minha mente)
Deveria, em teu lugar, ter amado um falcão
Pelo menos, com a primavera, retornam com estrondo
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro:
(Acho que te criei no interior de minha mente.)
