letrasINvento


28/03/2006


I need a drink



How often in your life have you heard or even used the words “I need a drink”? An engineer or mathematician would probably answer that by saying that the number of times I need a drink is directly proportional to the number of times a confusing or irrational situation arises in ones life. This is a comment almost exclusive to men. Why is that? Because most men find a need to create a rational state from that which is irrational. In the case of women, from the irrational comes the super-irrational. For example. Why is it that one question by a man is usually answered with five questions by a woman? Thus requiring more than one drink by the other species, namely man. Though this can often provide an escape from pending temporary insanity, the drink is still referred to in terms of “the evils of drink”. Why then is half the sacred ritual of all Christianity celebrated with a drink? Namely, holy wine. Someone waves their hand over it saying holy, holy and all the evil is gone. So, in the future, when that drink you need arrives simply wave your hand over it do a holy, holy and all the evil will be gone and you need only to wait for and watch the irrational become rational. If it does not happen right away then apparently another drink and a holy, holy is in order. I would say that the intensity of the holy, holy is directly proportional to the alcohol content of the drink. Those statements alone, being totally irrational, can cause one to say; “I need a drink”.

 

 

Jonh DeCruccio, americano, vive em São Paulo há séculos e já se pode dizer brasileiro. Mas, teimoso, continua poetando in English... Evohé, Baby! Acorda logo deste sono, que coisa!



Escrito por Alba às 03h48 AM
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Três Luas



Há três luas no cimo
da madrugada.
No céu, no meu, no teu olhar.

Há três luas no espanto de
sermos
aqui, agora, ligados.

Há três luas até adormecermos
na manhã
e, no quotidiano, desacordarmos. 

sofia vilarigues, 2006, Lisboa, PT

 

ph EBarrox


Escrito por Alba às 03h40 AM
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E eu também peguei carona

CINEMA2
é de manhã na américa o cio... abro a janela e fecho a porta, pois sem tua voz por aqui, ainda que sonhada, nada tem direção e nem mesmo as cortinas se descortinam, apenas se entregam às traças e se arruínam no pó da velha fita de filme noir que alguma beat person, imaginou fazer e saiu colando cenas de Tarantino, Kubrick e Jerry Lewis... ah, mas eu queria mesmo era te alcançar através dessa estrela que teima em brilhar no céu do meu ainda límpido olhar que o selvagem mundo não corrompeu. mas meu coração está corrompido, bêbado e viciado nesta coisa de ouvir música ao longe e acreditar que Morrison e Rimbaud são o mesmo poeta e que ninguém morreu naquele edifício tombado num longíquo setembro negro de tanto horror, que se repete porque o bicho homem quer, numa estação de metrô na fria London da música que o Caetano escreveu quando estava no exílio. mas eu dizia que a mulher-menina fumava compulsivamente, enquanto a taça de vinho tinto desmaiava sobre o altar de mármore, lentamente, como se fosse o sangue do Cristo que não sofria, mas sorria braços abertos e coloridos para um mundo que seria diferente pois Adão e Eva teriam decidido ser amigos e a serpente, transformada na prostituta atávica, se trocava na janela em frente, enquanto o poeta lusitano se quedava diante do cinema 2 que um paulista doido varrido embaixo do tapete do hospício escreveu enquanto ia de bicicleta pro dentista no outro lado da cidade. e que cidade grande é São Paulo. Iorque tupiniquim com seus artistas práticos e plásticos, cidade de pedra e almacoração, onde se sonha que um dia, será criado o raio que purificará o céu, e enfim estes artistas que zanzam pelas praças com seus jornais possam ver as estrelas e o luar que eu vi quando voltei um dia pro sertão onde ser tão bobo é bom. e o andarilho descalço na minha caneca toma comigo as palavras de um livro maldito chamado o coração das trevas que leio enquanto espero o telefone tocar, e escondo a capa pra ninguém saber que eu sei que todo o universo cabe numa casca de noz, e quem disse isso foi o Joseph Conrad. aí, eu ouço no rádio que um pedreiro bêbado foi encontrado morto dentro do concreto desarmado numa rua antiga da minha cidade... penso que se eu fosse o Chico eu fazia agora mesmo uma superprodução chamada Construção e filmava todo em P&B, deixando só o sangue do operário em vermelho bem vivo, da cor do vinho tinto que se espalha pelas minhas veias e como os pequenos raios que borram o ex-branco dos meus olhos que agora, depois que te conheceram, reaprenderam a chorar de esperas insensatas e incautas, tantas vezes avisadas pelos magos de plantão e pelos anjos expulsos do Paraíso por acreditarem em amor e beijonaboca. com língua e tudo. quanto tempo vai levar minha alma pra ser vendida pela tua indiferença ao primeiro personagem de crônica barata que nem se lê de tão comoventemente depressiva. que segredos terei que revelar até que meus nervos se soltem dos músculos e meu corpo atormentado seja liberto deste bemquerersemquerer...
mas eu dizia que ia fazer um cinema 3, e me surgiram estas abarrotadas palavras sem fé, que se lançaram tristemente nesta tela tola de um computador que se chama Jorge e se alguém perguntar o porquê eu vou ficar sem saber se pelo Borges ou pelo Santo que nem é mais Santo nem nada, e que pretende matar o dragão que cavalgo em pêlo, pelas pradarias de Tupã e Odin.
Vade retro!
Tela vazia, pois o cinema 2 acaba nele mesmo, naquela cena em que a mulher dorme ao lado dele na cabine elétrica do carro em alta velocidade, com o vento a carregar as notas do sax de Bird, e ele balbucia um verso de Ferlinghetti pra não esquecer que também é poeta.
Corta!
Ele vasculha a bolsa dela, à procura de um cigarro pra voltar a fumar, sorri meio cínico e pensa que também foi corrompido no fim de tudo.
Letreiro descendo.
Angelina Jolie, Edward Norton, Sean Penn e James Bond.
Música incidental da cena dela de olhos abertos beijando uma mulher.
Antonio Banderas, Keanu Matrix Reeves, Anjelica Houston e A Pantera Cor-de-Rosa
De repente, um fado, e a puta portuguesa sorri pro Poeta e lhe lança um beijo através da vidraça.
Aí já começa outro filme.

albanegromonte, Recife, BR, 2005

ph EBarrox

Escrito por Alba às 03h33 AM
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Inspiração no Cinema 2

CINEMA2
Acordar depressa, à pressa o duche frio, vestir o roupão de banho, a manhã ainda fria para além da voz no rádio despertador, na VCI o trânsito desenrola-se lentamente, ele quer dizer enrola-se, um acidente na A3 e o incêndio na serra de Valongo encontra-se praticamente dominado, sol, na janela do outro lado da rua a mulher vê que eu vejo e veste também o roupão, acho que sorriu, why she had to go I don’t know she wouldn’t say, ligar o computador, ver o saldo da conta, depressa, à pressa, tenho que sair e tratar de tanta coisa antes de partir para o sul para o sol para os salpicos de água nos corpos bronzeados, o outro look o outlook que finalmente abre e a tela do cinemaDois que se projecta em leitura lenta, saboreada antes de sair embrulhado na solidão próxima de um mar a sul ao sol ao sal ao som dos beatles Fecha lentamente Quem não é de cena sai de cena saio de cena à pressa com pressa rumo ao sol ao sul em breve. 

josé braz, Porto, Portugal, 2005

Escrito por Alba às 03h31 AM
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Cinema 2

CINEMA 2
Seqüência de CINEMA com legendas à côté de la fenêtre, lumière du soleil du matin, corps nu, musique d’un certain endroit. Corta pra uma rua em que pessoas berram idiotices e vendem sanduíches e xingam-se de dentro dos automóveis e enfim, tudo como sempre. a mulher, Entre uma e outra letra, dança sobre a tela. beijo (e)ternamente seus lábios Y outras imagens: a de uma criança perdida andando pelo acostamento de uma estrada no deserto porque – você diz –clichês de imagens que já vi em algum lugar e cenas rápidas de crianças sendo prostituídas em cidades sujas do terceiro mundo fusion pra sala ensolarada, incenso, tempo de amor ET MÚSICA CIGANA; já não se ouvem barulhos e a doce sensação de estar dentro de você mesmo que em sonho. cabelo despenteado, tatuagem & cítaras indianas lágrima felicidade alegria orgasmo luzes apagadas fotografia. Sanduíche. outrA história ou outra versão da história: você - um cara, o personagem, sei lá pôrra - está sentado num banco numa praça numa cidade – trilha horrível tipo aquela música (sic) pump up the jam (argh) – e uma criança negra chora sua mãe atavicamente prostituída em avenidas imundas e seu pão tem o gosto da bebida ingerida na companhia de bêbados, canalhas drogados de corpo sujo, vidas fodidas e mulheres tristes madrugada madrugada. Você fecha os olhos. Corta. Ao telefone a mulher-menina diz quero foder, quero te dar, diz fumando compulsivamente, misto de desejo inquietude. Imagens difusas entre um cigarro e outro, o Cristo crucificado já não sangra e todos os sorrisos se voltam para outro lugar e pássaros voam em grupos e, ao longe, ruídos ruídos ruídos. Por alguns instantes, pôr-do-sol em 32 bits fusion noite gostosa com explosões siderais e carrinhos de pipoca na calçada em frente. Nossos olhares projetam tempos passados e presentes, como somos felizes, cromossomos (in)felizes, roquinhos-baladas tipo Elvis and Chubbi Cheker tilintando entre cuba-libres e o desejo de tirar sua calcinha dentro do carro. ou. imagens contemporâneas mininal art. Cheguei agora e, puta que pariu!, outro mendigo diz ser Jesus Cristo e homens poderosos crucificam as esperanças. Na trilha de novo JAZZ, o cara não ouve outra coisa, mas você já tinha dito isso. Cena 2: ela começa a tirar o vestido longo-negro-colado-ao-corpo e anda descalça pela sala. Seu olhar não deveria manifestar emoções. É de noite madrugada e uma outra mulher beija sua boca. você sorri mostrando desejo na boca entreaberta enquanto me olha nos olhos. Um casal de velhinhos sai do elevador num hotel de Miami, textos de Henri Miller ditos no centro velho de San Pablo, voz de Janis Joplin e você diz que agora nada importa - mete mais, pede - sexo notícias desencontradas poetas noturnos e correntes de ferro imagens decorrentes. Cheiro de vela acesa. Lareira. Beijo na boca. Paixão dividida, noite de estrelas, sou sua você diz ainda desejando que o tempo se imobilizasse e/ou apenas se alternasse entre as cores do dia e os sonhos da noite, assim como ler poemas de Hilda Hilst em voz alta no degrau da escada ou andar em círculos pela praia semideserta ‘num dia de semana’... outraCena: o cara mais velho me diz que terei que aprender a conviver com a solidão. Penso nisso e digo foda-se: já convivo com minha solidão desde que me conheço, enquanto olho em seus olhos de já mulher e você me sorri ternamente. Olhares perdidos. Cinema. Pútridas emoções. Puras emotions. Notícias de jornal. Som de chuva. Andando de novo pelas ruas do centro velho numa cena com cara de domingo, o cara lê O Macaco e a Essência em voz alta seguido por uma procissão de motocicletas silenciosas e mulheres de capuzes negros. Referências, você diz, dando gargalhadas. "Não quero mais essas tardes mornas". Tesão. Tesão, você também diz. Divindades, a estrada ao amanhecer, agora você dorme no banco ao lado, o carro em velocidade, a janela aberta, sinos na igreja de uma pequena cidade. Sonhamos. Não consigo te esquecer; vejo seu sorriso na fotografia, também sinto vontade de chorar. É de manhã na américa do cio, Um cara diz que as utopias se acabaram, e eu também mando ele se foder! Cena repetida: não diga não não diga sim não olhe para trás não tenha nome nem passado não se importe com as feridas não considere os movimentos solares não saia de casa não estabeleça critérios não brinque de não ser fotografia em preto&branco não deixe nunca de brincar diz que sou gostosa me beija não acenda a luz abra a janela tire o vestido. Corta! O filme acabou.

eduardo barrox, São Paulo, BR, 2005

 

 

 

 

 

 

 

Escrito por Alba às 03h28 AM
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de 2oo1

É Tarde&Cedo

quem sabe não seja tarde,
e eu ainda possa morder tua pele imaginada branca,
colada na minha
seguramente morena;
ou
talvez não seja dia de sorte, previsto no biscoito chinês, e
o avião atrase, ou chova de madrugada e meu fusca não arranque;
e te percas, procurando meu endereço
-ou te aches em outro mapa, que não este que te dei...
...
seria hoje, o dia de me ver, conhecer, saber...?
quem sabe o dia, a hora, o minuto certo de me telefonar;
- explica aí: porque nunca me acerta em casa?
ou
quem sabe eu nunca saiba o sal da tua língua,
a se distrair em palavras soltas que não estas que se atam
em metáforas de selecionar dizeres,
em arremedos de versos livres, presos à tua lembrança
que não sei, nunca vi...
apenas ouvi.
mas talvez seja apenas tarde...

albanegromonte

Escrito por Alba às 03h18 AM
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Kafka também amava


Esta manhã tornei a sonhar contigo. Estávamos sentados, juntos, e tu me afastavas, não com maus modos, porém amavelmente. Eu me sentia muito infeliz. Não porque me afastasses, porém por minha culpa, porque te tratava como a uma silenciosa qualquer, e não percebia a voz que falava em ti, que justamente me falava, a mim. Ou talvez não fosse que não a percebesse, porém que não pudesse responder. Mais desconsolado ainda do que no outro sonho, eu me ia.
Ocorre-me à memória algo que uma vez li em alguma parte, mais ou menos assim: "Minha amada é uma coluna de fogo que traslada pela terra. Agora me tem preso. Mas não conduz aqueles que prendeu, porém aos que a vêem."

Teu.

(Agora perco também o nome; cada vez se torna mais breve e chegou a ser somente: Teu.)

Franz Kafka, em "Cartas a Milena".

Escrito por Alba às 03h15 AM
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Surreal&Passional

 Foi para ti e para teus olhos que criei estrelas no céu cinza-escuro
onde vez por outra surgia uma lua solitária e carente.
Mas estou cansada de magicar teus desejos.
Ontem sem nada pra te contar ao chegar em casa,disse quase com descaso, esperando o impacto:
- "Soubeste que a ornitorrinca do 201 comprou um brinco de diamantes?"
E diante da TV, sem som onde as imagens do replay da Ira de Deus se enroscavam em brutalidade animal,respondeste com ar de enfado:
- "Que bobagem, sabes bem que ornitorrincos não tem orelhas"
Aí lembrei que foi uma das primeiras mágicas que te fiz. Inventei bicho de nome esquisito, faltando pedaço, para que tua risada
me chegasse em melodia portenha.Sentei a teu lado, sem jeito e ajeitei a mecha de cabelo que caía sobre os meus olhos mudos.
E o silêncio de nós ecoou pelas paredes.
Um fado em solfejo entrou pela janela
mas diante de tamanho vácuo sideral
passou adiante.
A luz trêmula da TV à nossa frente. Relíquias astecas se alternando com múmias de gatos egípcios e saltos ornamentais de samurais ninjas Reloaded Matrix, ou Revolutions, ao sabor do teu toque nas teclas.
Procurei tua mão e me entreguei à memória que trago de ti no canto mais largo e arejado do meu coração bobo-bola-de-sabão.
Tequila engarrafada. Dry Martini. My name is Bond. Play it again, Sam. Lufadas de vento frio pelas cortinas envidraçadas. Volteios de desejo em meu corpo nu por baixo do vestido diáfano. Kill Bill, Gary Oldman, Blade Runner, Jude Law in Cold Mountain- que filme! Gattaca, Uma Thurman que é mulher pra mais de metro! O Gato de Botas com o olhar de pedinte qual o meu sobre a tua boca úmida de vinho bebido com a gueixa tropical que se despedia rumo a Paris, quando lá era uma festa.
E teu olhar colado no meu braço tatuado.
E o grito da rosa laranja na jaula do Tempo.
- Ah, Zeus! Onde joguei a chave do cadeado?
Cuida que esta rosa morre antes que amanheça e nada mais será como antes, pois quando tudo era o Caos e nem eu, nem tu sabíamos que serámos parte da História, recebemos violetas inertes pra ressucitar.
A tua, dorme hoje em vaso de barro, indiferente à monotonia.
A minha durou um piscar de olhos, um dia de inseto, o demorar do teu amor dentro de mim.
E um pássaro empalhado toca nossa campainha, com os olhos cegos e a garganta sangrando palavras e palavras tantas,
que dava pra escrever uma Odisséia em tamanho, um Ulysses em complexidade, um Cortazar em ternura, um Borges em fantasia, um Lorca em rebeldia e mais um tanto de letras que explodiriam o mais hightecnológico brinquedo americano de interconectar pessoas e pensamentos.
Tenho piedade deste pássaro petrificado, a quem sobram apenas penas de sangue e palavras a jorrar pela garganta ferida, como cantares antigos de canções medievais ou de bruxas semi-deusas ao redor da fogueira que embalavam os sonhos de princesas que eram, antes de serem tocadas pela lembrança atávica de Lilith, a ciumenta, que ao perder seu amor, transmutou-se em serpente e deu nessa confusão toda que hoje aí existe, de gentes procurando Paraísos Artificiais. E Adão que preferia sua Lua Negra Lilith que
sabia das coisas mais que a Santa Eva que só comeu a maçã porque estava mesmo com fome e não pelo querer pecar, ficou mortificado de saudades, mas tinha que obedecer ao Pai. Aí semeou em Eva, Baudelaire e Jim Morrison só pra se vingar assim sei lá de que.
E nunca entendo porque as mulheres em Paris se rasgavam em sedas para que Picasso as pintassem, se era tudo orelhas-nariz&olhos... E também noutro dia descobri, pelo dizer de uma poeta das boas, que o escuro do pintor que eu mais gostava, Caravaggio, que na verdade foi o inventor do jogo luz&sombra que se usa hoje nas fotografias e desde o tempo dele que o diabo já sabia e pintava até Cristo que nem numa foto feita em camera digital de muitos megapixels que foi outra palavra que aprendi depois de grande.
Ou nem tão grande sou, já que tem tanto assunto nesse mundo, em que só engatinho e tem vacinas que ainda não tomei.
Mas os trovões alardeiam o fim do dia, e a rosa laranja
agoniza dentro da jaula do Tempo. O Mestre da poeta doce não ouviu o recado na caixa postal do celular negro deixado sobre o altar dos ermitões e sábios intinerantes que rolavam pelas calçadas de uma cidade que tem nome de santo, mas nem é batizada. Estes sábios oravam pelo martírio do Sunday Blood Sunday (quando isso ainda não era nome de música) e também não escutavam nada, além dos gritos de horror das almas espatifadas pelas bombas dos homens-meninos-suicidas que chegaram duas vezes em Setembro. Munique&NY. Hasta la vista, WTC. Fogo, dor, poeira e granito abaixo do chão que onde dizem mora o Demônio com chifres e rabo vermelho.
Manitu! Tupã!
Xangô!
Deuses quaisquer, me ajudem a salvar a rosa laranja que só por ser dessa cor já não nasce outra vez,
e eu por castigo
reencarnarei mil vezes pra pagar esse pecado absurdo de deixar a rosa dos Tempos morrer, enquanto escrevia em grafite nas paredes das cavernas das tribos milenares a profecia de tudo que aconteceu ontem e hoje neste espaço paralelo da minha vida.

albanegromonte

Escrito por Alba às 02h59 AM
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Monólogo



Fim de caso

Desculpe-me interromper seu pensamento tão distante, mas acho que chegou a hora de conversarmos feito gente grande. E não faz essa cara de espanto que você já sabia que isto ia acontecer... até andou perguntando outro dia se ainda gosto de você. Ah, então era técnica de revista feminina pra que eu me declarasse enfim apaixonado por você. Sinto muito, não entendi. pensei que era apenas mais um daqueles seus ataques de carência afetiva que me enlouquecem desde o primeiro dia em que te vi. Relevei na hora pois você é muito gostosa. desculpaaaaa... pensei que isto melhoraria sua auto-estima e facilitaria o que não dá mais pra ocultar: é verdade: não gosto mais de você. Não quero mais estar na sua vida. Apague meu endereço de e-mail, rasgue a foto que te dei, risque meu nome da sua agenda e por favor não me telefone mais no meio da noite que ao contrário de você, pessoas normais precisam dormir. Ah, e não se despedace em letras mancas, plenas de lirismo pra mim. Isto não fará diferença alguma. Duro? estou sendo duro? Acho até que amoleci nos últimos tempos... estou te contando antes que me veja com outra. isso é consideração. e por favor, pare de chorar que todo mundo está olhando e você sabe o quanto detesto exposição em público. Nunca beijei você na frente das pessoas, porque agora iria enxugar estas lágrimas repetidas? Pára, por favor... você sabe bem que é esta sua alma de poeta, que a faz sofrer tanto a cada perda. Não sou tão importante assim... foram poucos dias... você mal me conhece. nem sabe o que gosto de comer, que assisto a filmes trash na madrugada, que curto futebol de botão... e pra falar a verdade nem é bom que saiba mesmo, agora que tudo se acabou. Acabou, viu? Então agora enxuga esse olhinho bonitinho, arruma o baton, termina este vinho na taça e vamos embora que seu avião já vai partir. A gente se vê por aí. Você é muito legal e uma mulher bonita. vai encontrar quem lhe mereça. Eu não presto. Sério. Beijo. Na testa. Portão 3. Não esquece. Boa viagem. E não precisa me ligar quando chegar.
Que mulher mais chata! O que um homem não tem que suportar pra melhorar seu ranking...

albanegromonte

 

Escrito por Alba às 02h56 AM
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Resposta

tua pele
cristal de Lua
que chega pros meus olhos
a cada mês que me afasta de ti
tua língua
inesperada
em começo de
madrugada
com mãos e cheiro
e me tomar
corpo&alma
olhar ardosia
encantador de serpentes
falando esperanto
em spanish lips
me beija
e aquece
a cada noite
como se ainda
estivesse dentro
de mim
e eu boca aberta e sedenta
sussurro a cada estrela que cai
teu nome segredo sagrado
no meu grito mudo
pelo mundo
que nos
mantém longe

albanegromonte

 

Escrito por Alba às 02h51 AM
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Tudo em poucos versos

 
Penso linhos e ungüentos
para o coração machucado de Tempo.
Penso bilhas e pátios
Pela comoção de contemplá-los.
(E de te ver ali
À luz da geometria de teus atos)
Penso-te
Pensando-me em agonia. E não estou.
Estou apenas densa
Recolhendo aroma, passo
O refulgente de ti que me restou.



Hilda Hilst
Do Amor, Massao Ohno Estúdio, 1999 - S. Paulo, Brasil

Escrito por Alba às 02h25 AM
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Poeta!

Teia de aranha, galho seco da roseira,

Quem sou ?

Lua calçada em alpargatas de prata

Rapta as flores da fronha,

Quem sou ?

Pássaro que mora na neblina

Destila seu canto de água limpa

-longe, sozinho –

me diga quem sou.

 

Cláudia Roquette Pinto

 

Escrito por Alba às 02h22 AM
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24/03/2006


Escrito...

-Alô...
-Desculpe te incomodar a essa hora, mas... não dá pra ficar mais essa noite sem ao menos um pouquinho!
-Mas foi você quem me ofereceu pela primeira vez!
-Não importa se eu estou viciado ou não, o problema é meu!
-Eu preciso de mais um pouco...
-Sim, eu sei... mas é que... peraí...
-É, eu sei que não tenho condições de pagar o preço, mas eu simplesmente preciso, você não entende?
-Olha, se você não me atender, vou ser obrigado a tomar atitudes drásticas!
-Estou te avisando!!!
-Você não me conhece! Você não sabe do que eu sou ca...
-Mas...
-Tá bom, eu sei... Me desculpa... Não... Não, eu não vou mais... perdão, me desculpa!
-Só preciso de mais uma vez! Uma vezinha só! Eu juro!
-Eu sei que eu falei a mesma coisa da última vez... mas... agora é sério!!!
-Eu juro... por favor... estou de joelhos! Ai, meu Deus do céu!
-Alô?
-Alô?
-Eu preciso do seu amor, eu preciso!
-Não desliga, por favor... eu te amo... eu te amo...
-tem uma arma na minha mão...
-eu te...
-eu...
...

 

moacircaetano

ph moacircaetano

Escrito por Alba às 08h27 PM
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Do meu poeta

talvez assim

não nos encontremos mais

e o poema do teu corpo

se desfaça na saudade perplexa

dos meus dedos

 

talvez assim

nesta distância que nos une

o eco do teu riso

permaneça nas sombras das paredes

que me abraçam

 

talvez assim

agora que nos vemos apenas

no silêncio das palavras

recuperemos o tempo abandonado

na estrada por onde não seguem nossos passos

 

talvez assim

na esteira que o rio da tristeza

deixa ondular na proa da esperança

nos possamos amar

na margem do possível

 

JM Restivo Braz

 

Escrito por Alba às 08h00 PM
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me vejo deserto.
aproxima-se uma Lua violeta,
um peixe sem cor.
me vejo deserto sem tua palavra.
ave, palavra!
sem teu olhar sobre meu umbigo crucificado,
 meu corpo sonãmbulo molambo,
se desloca insano
pelas madrugadas frias e pelas ruas sujas.
minha alma está contigo.
e eu, deserto
parada em doses maciças de pílulas amargas
tento achar o caminho do mar,
da linha do trem, da janela aberta
da bala de prata.
eu, deserto.
minha alma contigo.
meu corpo sujeito à lei da gravidade.
Ícaro moderno
me jogo pelos espaços virtuais,
achando enfim o vazio
que me deixaste como endereço
na partida  de nós.
 
albanegromonte
 
 
 
 
 

Escrito por Alba às 08h05 AM
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Errata

Ops!

Quando postei este texto magnífico, esqueci (achando que todo mundo saberia reconhecer-lhe a assinatura), de dizer que é de autoria do meu herói, Eduardo Barrox.

Pra me desculpar ainda mais, aí vai o link da página dele, que é grande fotógrafo, escritor, enciclopédia ambulante,libertário, anarquista, amigo, gato, editor do Jornal da Praça&Café Literário que dá as caras, digo, as páginas na Praça Benedito Calixto aos sábados, intensificador de talentos e Herói!

Beijo, Eduardo!

http://beatnik.blig.ig.com.br

Escrito por Alba às 07h29 AM
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23/03/2006


Book of Days


tem dias que fico meio assim, como que perdido entre vozes e olhares E te procuro olhando nos rostos das pessoas que passam por mim ou tento fazer com que seu olhar me encontre assim no meio da cidade onde nossos encontros se desconstroem; tem dias que penso intensamente que a única felicidade possível é te abraçar e sentir o calor do seu corpo e se transforma em magia o momento em que sinto sua boca de leve numa espécie de beijo quase roubadoo que, ao mesmo, tempo, traz a leveza de um vôo de pássaro; tem dias em que me surpreendo não pensando em outra coisa que não seja seu sorriso quando falamos das coisas que escrevemos entre os copos de vinho e os toques quase furtivos de mãos sobre a mesa. ou dos olhares que passam pelas pessoas como se fossem invisíveis Tem dias em que enxergo longe um outro lugar e um outro jeito das coisas serem, dias de sol substituindo as noites quentes e outro tipo de luz incidindo sobre seu corpo e outro enquadramento pela teleobjetiva; dias em que me sinto forte e ao mesmo tempo exausto, em que lágrimas escorrem entre sorrisos e que nem sei porque vestimos tantas armaduras se pressinto o que queremos ser a mesma coisa e o mesmo abraço e outros jeitos de fazer amor. Tem dias em que tudo me parece estranho e não reconheço as pessoas mais próximas e fico olhando a calçada e ouvindo ruídos de automóveis ao longe. tem dias que minha pele fica arrepiada, ao sentir sua proximidade e me recordo da fotografia e a imagino em outras fotografias, e produzo mentalmente um ensaio em preto&branco sob sons de tom waits onde o estado latente de nossos amores possa ser revelados et tem dias que são assim mesmo, uma fusão de sentimentos desordenados ao som de coltrane my favorite things se alternando com enya in book of days e coisas assim como guardar rótulos de vinho pensando em como foram bebidos; dias em que penso em usar o telefone e inventar coisas só pra te ouvir a voz e/ou fico sem nexo dedilhando a kalimba esperando que você venha afinar e musicar nossos desejos. tem dias em meu sono é atribulado porque você existir transforma a realidade em sonho e me aparece sorrindo querendo ser, e me estremeço e acordo sem saber. tem dias que a noite é longa, justamente porque estamos fisicamente distantes um do outro, e nem sei direito como é a cidade em que você mora e aí fico na praça agora vazia ouvindo um cara cantar stormy e penso em estrada em outros caminhos porém todos eles me levam a você, e dessa forma mantenho os olhos fechados achando que um dia vai ter um dia em que você virá e, depois, não precisará mais se ir.

Eduardo Barrox

 

 

Escrito por Alba às 06h19 AM
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Moon in Sampa

ph EBarrox

Escrito por Alba às 06h17 AM
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Julio Cortazar


 
 

 "Por que escrevo isto? Não tenho idéias claras, sequer tenho idéias. Há trapos, impulsos, bloqueios. E tudo procura uma forma, então entra em jogo o ritmo e eu escrevo dentro desse ritmo, escrevo por ele, movido por ele e não pelo que chamam de pensamento e que faz a prosa, a literatura. Há primeiro uma situação confusa, que mal pode definir pela palavra; é dessa penumbra que eu parto e, se aquilo que quero (se aquilo quer dizer-se) tiver força suficiente, o swing começa imediatamente, um oscilar rítmico que me traz para a superfície, que ilumina tudo, que conjuga esta matéria confusa e o que a castiga numa terceira instância, clara e como que fatal: a frase, o parágrafo, a página, o capítulo, o livro. Esse escilar, esse swing no qual se vai informando a matéria confusa, é a única certeza, pra mim, da sua própria necessidade, pois, tão logo única recompensa do meu trabalho: sentir que aquilo que escrevi é como um dorso de um gato sob carícia, com fagulhas e um arquear cadencioso. Assim, ao escrever, desço ao vulcão, aproximo-me das Mães, entro em contato com o Centro, seja o que for. Escrever é desenhar o meu mandala e, ao mesmo tempo, guardá-lo para mim, inventar a purificação, purificando-se; tarefa que compete a um pobre xamã branco com meias de náilon"
 
julio cortazar

Escrito por Alba às 06h06 AM
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Bilhete

e é por mim e por ti,
que lanço fogo às vestes desta saudade invertida
e atiro aos pés da santa, as pedras que carregava no bolso
antes de entrar no mar.
é por nós, amor meu,
que gravito em torno de Mercúrio
deixando a Lua para teus olhos
por ti e por mim,
esqueço a última canção que ouvimos
o teu cheiro que ainda impregna os lençóis
a tua marca no meu corpo
tua imagem do outro lado do espelho onde sempre me vejo antes de sair para a luta diária.
crucifico as lembranças todas, tão tolas
em pérolas no pescoço
e recolho ao tambor a bala de prata
engasgo a pílula
o veneno
e me agarro no parapeito da janela antes de pousar no chão quente logo ali na frente
aguardo o sinal abrir
teu olhar surgir
(esta cidade nunca foi tão grande)
e nunca te vejo além da velha fotografia
ou da memória de tantos sóis poentes.
e é ainda teu gosto, que me vem na língua
quando atravesso o deserto sem luar e sem fim
tentando apenas te esquecer
 
albanegromonte

Escrito por Alba às 05h37 AM
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    APONTAMENTO

A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.

Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.

Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.

Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?

Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.

Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.

Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali.

Álvaro de Campos, 1929

Escrito por Alba às 05h33 AM
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ph Marise Pollonio

 

só o que te peço nesta hora
intranquila de solidão
é uma palavra que diga mais
que um qualquer dito a quem quiser ouvir.
 
o que te peço neste momento
é um carinho bem no centro do coração
que já aprendeu a sentir
tua ausência
 
só o que preciso nesta hora
é da tua mão na lágrima cansada que corre
pelo rosto
através do corpo tatuado por tuas mãos
 
o que preciso nesta hora
é que me digas, que sim
ainda posso sonhar
de te querer
de te poetar
de te desejar nas noites que se vão longe de ti
 
apenas peço e preciso
da tua presença no meu dia
na rosa e na lua fotografadas pelas tuas mágicas lentes
da tua palavra afago no fim do dia
de tua voz vez em quando
apenas...
 
albanegromonte

Escrito por Alba às 05h27 AM
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Dia 23

Quarta-feira 22
Quinta-feira 23
6 meses
180 dias sem destino
180 noites de agonia
Mais tantas horas sem você.
E tudo continua no mesmo lugar.
A cama com seu cheiro
O travesseiro com sua marca
O corpo tatuado e ensandecido nos vazios encontrados
Nos cabelos a carícia última
Nos lábios, o beijo roubado
Nas mãos o fugir de você
Na testa o sinal de ocupado
E ninguém chega para acabar esse inferno
Para apagar essa chama
Para enfim me libertar
Do poder deste amor que parece nunca mais acabar
albanegromonte

Escrito por Alba às 05h14 AM
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