letrasINvento


15/04/2006


Cimitarra

Cimitarra Branca

não é sempre, mas quase. o certo, é que o incerto bate na porta da razão e grita surdamente: nunca mais de novo. dá mesmo é vontade de sorrir do absurdo que antecede este dizer assim meio valente, um tanto de coragem de cavaleiro de cruzada, sem espada, sem cavalo, olhando pras cimitarras brilhantes embaixo do sol inclemente do lado oriental do mundo. (que coisa mais boba de imaginar, em plena era matrixreloadedminorityreport). e como era mesmo o nome da princesa das orelhas pontudas que sorria na versão oscarizada de lordoftherings auele tal Tolkien que me ensinou a crer em fantasia além de Alice&Lewis. sem o mal, não sobrevive o bem... não é? penso assim: Deus precisa do Anjo Negro para reforçar sua presença nos corações&almas humanas.
é...
não deveria ser sempre, nem certo o anteceder da vingança ser o mal feito, o mal dito maldito, o nemquerosaber...
eita! a língua afiada agora chicoteia a razão, mas a emoção não pára e continuo zangada com você e repito até que o eco da montanha mannistica se canse, e grite uma resposta diferente da minha perguntinha bola de gude: quando vou te ver além deste espaço? sinuca de bico, tempestade no céu da boca sem nuvens, rolando na língua o chocolate que a moça do restaurante me deu por baixo do balcão, piscando o olho, irreverente olho de vidro.
então faça as malas e vá pra estação que o trem das doze já vai sair pra trazer você pra mim.


albanegromonte

 

Escrito por alba N. às 10h40 PM
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Sinais

 





Espero

enquanto é dia e o sol arde

enquanto há luz e tanto brilho



Aquieto a alma

enquanto há vozes e o silêncio se acanha

enquanto há gente e tanto barulho



Travo a dor

entre o som e a cor

aumento o volume do rádio

pra ouvir Edu, o Lobo



Pelo espelho retrovisor avisto o passado

tão próximo desta hora que passa



Coração se enrola

e aquece a saudade

Acelero a cem

atropelando a vontade

de gritar que te quero



Sinal vermelho. Paro.

Espero.

Sol esfriar

Luz apagar

Silêncio chegar

Canção acabar

Passado seguir

Coração calar

Vontade morrer

Sinal abrir

Eu deixar de te querer.

 

albanegromonte

Escrito por alba N. às 10h27 PM
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História de Cronópia

 

outro dia (um dia muito feliz), eu ganhei de presente meu tão sonhado livro de Cortazar sobre os Cronopios e Famas.
desde então não largo dele que me acompanha por todos os meus andares.
leio&releio.
abro páginas aleatoriamente.
tem histórias que já sei de cor...
então hoje eu estive meio triste, e alguém muito querido me sentiu assim, pelo jeito de falar, não sei bem... talvez eu seja mesmo muito transparente nos meus sentimentos...
dei-lhe uma desculpa qualquer e disse-lhe que conversaríamos depois&depois.
saí pro trabalho, viajando naquela tristeza naquela tão doída e meu radio tocou uma velha canção que sempre me aquece... A prayer for you... aí a lágrima besta não se aguentou mais e desceu com toda a plêiade que a acompanhava bem no pára-brisa do meu carro e no meu rosto um tanto cansado dos dias estranhos que se vive por este mundo de meu Deus.
um acidente logo à frente, travou o trânsito.
como ainda era cedo, parei no Marco Zero do Recife, que fica à beira do cais...
brilhava uma lua linda sobre o rio.
e como havia luz, peguei Julio pela mão e fomos sentar na murada.
o vento assanhava meu cabelo que anda muito comprido... prendi-o do meu jeito habitual.
abri o livro e li a historinha do Cronopio que se formou em Medicina e abriu consultório. um homem veio ter com ele, e queixou-se de que não conseguia dormir à noite, comer, sorrir... o Cronopio então receitou-lhe um ramo de rosas. o homem achou estranho, mas foi lá e comprou.
logo ficou bem. feliz, com vontade de comer e passou a dormir bem. >
voltou então ao consultório do Cronopio, pagou-lhe a consulta e deu-lhe de presente um ramo de rosas.
no mesmo instante, o Cronopio passou a não dormir bem, comer e ficou triste...
então um sorriso me veio.
e entendi o que se passava.
Cronopia que sou.
apenas absorvi o sentir de alguém a quem ofereci um ramo de rosas e um ombro pra suportar o mundo.
espero que meu paciente esteja bem.
eu, depois que compreendi a essência do Cronopio, já me alegrei um tanto.
 
albanegromonte
 
ps: e para quem nunca viu um Cronopio, um deles andando disfarçado na madrugada.
 

Escrito por alba N. às 07h07 PM
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Estradas de Dezembro


um dia, escrevi este aqui,
guardei,
esqueci...
hoje, no remexer do passado dos
cofres selados
com fitas de cetim...
encontrei-o e resolvi postar




e como da primeira y segunda vez, em meses distantes em números pares e discretamente redondos,
te espero com velas y incensos mais poderosos que a fumaça do teu cigarro. and, sem blues e jazz, pois ainda não sei se dura um poema esta nossa história, deixo que o silêncio fale por mim e te diga que sim. é bom você rasgar o céu no pássaro de plata and me chegar furacão, dizendo obscenidades no meu ouvido e se abrindo inteira para minhas retinas atrevidas de ojos que tudo viram e que mais um pouco não fará nenhum mal.
abro as portas da casa, indico o labirinto que leva até a minha cama.
e você, sem perguntas quaisquer que me façam dizer "que diabos foi isso que eu fiz?", toma banho com óleos dourados que tornam sua pele morena ainda mais macia&cheirosa, beija minha boca aberta e passando a língua na borda da taça de vinho, me diz em silêncio também que sou o que mais quer neste momento.
e posso ouvir seu coração batendo dentro da blusa transparente e diáfana, como o manto com que queria cobrir tua nudez, que agora me incomoda, com tanta firmeza e maturidade, que nem sei mesmo como ensinar o que você diz não saber, mas faz, como se fosse gueixa, puta ou deusa.
e tenho medo de beijar seus pés e de fazer noventa e oito fotografias do teu corpo sereno&calmo depois do gozo que ilumina teus olhos e eu me vejo dentro deles como se fosse o primeiro ou o último homem criado pelo deus crucificado que trazes no pescoço e no umbigo que beijo e bebo como cálice de cicuta dado ao prisioneiro
condenado à morte, para que não sofra com o fogo, com as flechas, com a dor.
e será dor que sentirei quando chegar o dia em que montarás nas asas do pegasus prateado que te levará à cidade do sol, dos rios cortando as ruas, dos mangues, frevos e maracatus?
não sei.
sei que queria ser outro, que pudesse escrever na tua pele um poema destes azulados, calientes e tão vero que te deixasse com vontade de voltar.
mas eu sei, que na roda do calendário haverá um outro dia, em que tua voz me dirá "estoy ca" e tua presença plena de tudo encherá os pequenos vazios que nem sabia existir no meu canto.
e eu certamente acenderei velas y incensos, te darei vinho e chocolate, darei risada do presente estranho que me trouxeres, e brincarei com teus cabelos longos, com tuas coxas grossas e beijarei tua boca com saudade,
e te cobrirei com algum lençol que achar pela casa, para que não andes com alma tão nua.
e não sei se será neste terceiro ou quarto encontro do teu corpo na minha cama, que me renderei a teu encanto, e te darei um solo de Joplin, te direi um poema de Chacal, te enrolarei no sudário que guardo há séculos e dançarei só contigo sob a luz da lua e dos olhos dos gatos da rua, a dança das tribos antigas de onde viemos e pra onde voltaremos se eu um dia, decidir te amar.
aí, chegará o dia de tua partida, e eu te pedirei. fica, quero ser feliz com você.

 

albanegromonte

Escrito por alba N. às 11h57 AM
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Dueto

Eu e Alberoni, na sala virtual dos AndarilhosDasLetras
Grande parceiro você, Viejo Brujo.

 

 


A vida é breve.
O amor dura uma estação
Então porque você não me pede pra voltar?                                     (Alba)

Talvez por ser breve a vida,
e o momento passou feérico
como experiência
encerrando em si
a mesma vida.                                                                                         (Alberoni)

Ainda assim, espero
Que as estações se enquadrem
no que o Tempo pra elas reservou.
e que você, ao olhar no calendário
perceba que ainda falta
de mim, viver alguns dias                                                                        (Alba)



Não as estações marcam no corpo
como sentimentos,
são os dias de espera sem esperança lúcida
quando guiados pela mente.

Deixe-a jogada no armário
como roupa usada e fora de moda,
guarde-se no silêncio do quarto
dito absurdo,
nos traz a perdida alegria,
se a alma não é pequena                                                                      (Alberoni)


Então se creio em tua Poesia
e ainda mais em Esperança
Guardarei minha espera insana
em gaveta qualquer de armário da lembrança
do pouco que fui
e do tanto que és
Pois sempre uma estação chega
quando a outra finda
E um dia quem sabe
talvez me aches
no silêncio do quarto
no vão da mente
que nunca pôde
te dizer
adeus                                                                                                        (Alba)

 

 

ph Gloria Correa

Escrito por alba N. às 11h50 AM
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Passional

 Foi para ti e para teus olhos que criei estrelas no céu cinza-escuro
onde vez por outra surgia uma lua solitária e carente.
Mas estou cansada de magicar teus desejos.
Ontem sem nada pra te contar ao chegar em casa,disse quase com descaso, esperando o impacto:
- "Soubeste que a ornitorrinca do 201 comprou um brinco de diamantes?"
E diante da TV, sem som onde as imagens do replay da Ira de Deus se enroscavam em brutalidade animal,respondeste com ar de enfado:
- "Que bobagem, sabes bem que ornitorrincos não tem orelhas"
Aí lembrei que foi uma das primeiras mágicas que te fiz. Inventei bicho de nome esquisito, faltando pedaço, para que tua risada
me chegasse em melodia portenha.Sentei a teu lado, sem jeito e ajeitei a mecha de cabelo que caía sobre os meus olhos mudos.
E o silêncio de nós ecoou pelas paredes.
Um fado em solfejo entrou pela janela
mas diante de tamanho vácuo sideral
passou adiante.
A luz trêmula da TV à nossa frente. Relíquias astecas se alternando com múmias de gatos egípcios e saltos ornamentais de samurais ninjas Reloaded Matrix, ou Revolutions, ao sabor do teu toque nas teclas.
Procurei tua mão e me entreguei à memória que trago de ti no canto mais largo e arejado do meu coração bobo-bola-de-sabão.
Tequila engarrafada. Dry Martini. My name is Bond. Play it again, Sam. Lufadas de vento frio pelas cortinas envidraçadas. Volteios de desejo em meu corpo nu por baixo do vestido diáfano. Kill Bill, Gary Oldman, Blade Runner, Jude Law in Cold Mountain- que filme! Gattaca, Uma Thurman que é mulher pra mais de metro! O Gato de Botas com o olhar de pedinte qual o meu sobre a tua boca úmida de vinho bebido com a gueixa tropical que se despedia rumo a Paris, quando lá era uma festa.
E teu olhar colado no meu braço tatuado.
E o grito da rosa laranja na jaula do Tempo.
- Ah, Zeus! Onde joguei a chave do cadeado?
Cuida que esta rosa morre antes que amanheça e nada mais será como antes, pois quando tudo era o Caos e nem eu, nem tu sabíamos que serámos parte da História, recebemos violetas inertes pra ressucitar.
A tua, dorme hoje em vaso de barro, indiferente à monotonia.
A minha durou um piscar de olhos, um dia de inseto, o demorar do teu amor dentro de mim.
E um pássaro empalhado toca nossa campainha, com os olhos cegos e a garganta sangrando palavras e palavras tantas,
que dava pra escrever uma Odisséia em tamanho, um Ulysses em complexidade, um Cortazar em ternura, um Borges em fantasia, um Lorca em rebeldia e mais um tanto de letras que explodiriam o mais hightecnológico brinquedo americano de interconectar pessoas e pensamentos.
Tenho piedade deste pássaro petrificado, a quem sobram apenas penas de sangue e palavras a jorrar pela garganta ferida, como cantares antigos de canções medievais ou de bruxas semi-deusas ao redor da fogueira que embalavam os sonhos de princesas que eram, antes de serem tocadas pela lembrança atávica de Lilith, a ciumenta, que ao perder seu amor, transmutou-se em serpente e deu nessa confusão toda que hoje aí existe, de gentes procurando Paraísos Artificiais. E Adão que preferia sua Lua Negra Lilith que
sabia das coisas mais que a Santa Eva que só comeu a maçã porque estava mesmo com fome e não pelo querer pecar, ficou mortificado de saudades, mas tinha que obedecer ao Pai. Aí semeou em Eva, Baudelaire e Jim Morrison só pra se vingar assim sei lá de que.
E nunca entendo porque as mulheres em Paris se rasgavam em sedas para que Picasso as pintassem, se era tudo orelhas-nariz&olhos... E também noutro dia descobri, pelo dizer de uma poeta das boas, que o escuro do pintor que eu mais gostava, Caravaggio, na verdade foi o inventor do jogo luz&sombra que se usa hoje nas fotografias e desde o tempo dele que o diabo já sabia e pintava até Cristo que nem numa foto feita em camera digital de muitos megapixels que foi outra palavra que aprendi depois de grande.
Ou nem tão grande sou, já que tem tanto assunto nesse mundo, em que só engatinho e tem vacinas que ainda não tomei.
Mas os trovões alardeiam o fim do dia, e a rosa laranja
agoniza dentro da jaula do Tempo. O Mestre da poeta doce não ouviu o recado na caixa postal do celular negro deixado sobre o altar dos ermitões e sábios intinerantes que rolavam pelas calçadas de uma cidade que tem nome de santo, mas nem é batizada. Estes sábios oravam pelo martírio do Sunday Blood Sunday (quando isso ainda não era nome de música) e também não escutavam nada, além dos gritos de horror das almas espatifadas pelas bombas dos homens-meninos-suicidas que chegaram duas vezes em Setembro. Munique&NY. Hasta la vista, WTC. Fogo, dor, poeira e granito abaixo do chão que onde dizem mora o Demônio com chifres e rabo vermelho.
Manitu! Tupã!
Xangô!
Deuses quaisquer, me ajudem a salvar a rosa laranja que só por ser dessa cor já não nasce outra vez,
e eu por castigo
reencarnarei mil vezes pra pagar esse pecado absurdo de deixar a rosa dos Tempos morrer, enquanto escrevia em grafite nas paredes das cavernas das tribos milenares a profecia de tudo que aconteceu ontem e hoje neste espaço paralelo da minha vida.

 

albanegromonte

 

 

ph Fred Monteiro

Escrito por alba N. às 11h21 AM
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A Pablo Neruda

Chile, 1973



parem a guerra.
silenciem os tambores dos revólveres.
retirem as fardas das avenidas.
baixem a guarda dos tanques.
deixem as ruas abertas.
- os relógios pararam, não vêem?
os sinos estão mudos, agora.
o sol se escondeu atrás da nuvem plúmbea.
as crianças não sorriem.
as mulheres não cozem nem cozinham.
os homens tiraram os seus chapéus- não perceberam?
o Poeta morreu.
sua alma pede espaço pra subir na escadaria de versos que esculpiu por toda a vida.
e deixem que o cachorro siga o cortejo bem na frente.
um cachorro sofre a perda do seu dono.
um País chora a perda do seu arauto.
uma mulher pranteia seu homem amado.
um carteiro vai virar escritor.
o mar ficará mais cheio, agora que ele não colhe mais conchas e coisas.
uma criança não conhecerá seu pai.
mas o mundo inteiro reconhece
a morte do Poeta.
parem a guerra.
respeitem a dor da Poesia,
agora inconsolável.

 

albanegromonte

Escrito por alba N. às 11h10 AM
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Samuel Beckett

que faria sem este mundo sem rosto sem perguntas
onde ser dura apenas um instante onde cada instante
verte para o vazio o esquecimento de ter sido
sem esta onda onde no final
corpo e sombra juntos se devoram
que faria sem este silêncio sorvedouro dos murmúrios
que anelam frenéticos por socorro por amor
sem este céu que se ergue
sobre a poeira do seu lastro

que faria faria o que fiz ontem o que fiz hoje
espreitar do meu postigo para ver se não estou só
a dar voltas e voltas longe de toda a vida
num espaço fantoche
sem voz no meio das vozes
encerradas comigo

 


Escrito por alba N. às 10h12 AM
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14/04/2006


Inédito de Pessoa

TÉDIO

 

27-2-1913

Caem-nos tristes e lassos

     Os nossos braços...

Que fazer, ó meu amor

Ó que alegrias tão dor!

Que cansaço tão cansaços!

 

Um dia de cinza. Chama

     Por mim. Que ama,

Quando se conhece e sente?

Sentir-se é estar doente.

 

Fernando Pessoa

 

* poema inédito, sacado do baú literário do grande poeta...

Escrito por alba N. às 08h49 AM
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11/04/2006


MM

Ernesto Cardenal con la, sacristía o, bella Oración por Marilyn Monroe:


Señor
recibe a esta muchacha conocida en toda la tierra con el
nombre de Marillyn Monroe
aunque ese no era su verdadero nombre
(pero Tú conoces su verdadero nombre, el de la huerfanita
violada a los 9 años
y la empleadita de tienda que a los 16 se había querido matar
y que ahora se presenta ante Ti sin ningún maquillaje
sin su Agente de Prensa
sin fotógrafos y sin firmar autógrafos
sola como un astronauta frente a la noche espacial.

Ella soñó cuando niña que estaba desnuda en una iglesia
(según cuenta el Time)
ante una multitud postrada, con las cabezas en el suelo
y tenía que caminar en puntillas para no pisar las cabezas.
Tú conoces nuestros sueños mejor que los psiquiatras.
Iglesia, casa, cueva, son la seguridad del seno materno
pero también algo más que eso
Las cabezas son los admiradores, es claro
(la masa de cabezas en la oscuridad bajo el chorro de luz).
Pero el templo no son los estudios de la 20th Century-Fox
que hicieron de Tu casa de oración una cueva de ladrones.

Señor
en este mundo contaminado de pecados y radiactividad
Tú no culparás tan sólo a una empleadita de tienda.
Que como toda empleadita de tienda soñó ser estrella de cine.
Y su sueño fue realidad (pero como la realidad del tecnicolor)
Ella no hizo sino actuar según el script que le dimos
--El de nuestras propias vidas-- Y era un script absurdo.
Perdónala Señor y perdónanos a nosotros
por nuestra 20th Century
por esta Colosal Super-Producción en la que todos hemos trabajado
Ella tenía hambre de amor y le ofrecimos tanquilizantes.
Para la tristeza de no ser santos
se le recomendó el Psicoanálisis.

Recuerda Señor su creciente pavor a la cámara
y el odio al maquillaje --insistiendo en maquillarse en cada escena--
y cómo se fue haciendo mayor el horror
y mayor la impuntualidad a los estudios.

Como toda empleadita de tienda
soñó ser estrella de cine.
Y su vida fue irreal como un sueño que un psiquiatra interpreta y archiva.

Sus romances fueron un beso con los ojos cerrados
que cuando se abren los ojos
se descubre que fue bajo reflectores

y apagan los reflectores!

Y desmontan las dos paredes del aposento (era un set cinematrográfico)
mientras el Director se aleja con su libreta

porque la escena ya fue tomada.

O como un viaje en yate, un beso en Singapur, un baile en Río
la recepción en la mansión del Duque y la Duquesa de Windsor

vistos en la salita del apartamento miserable.


La película terminó sin el beso final.
La hallaron muerta en su cama con la mano en el teléfono
Y los detectives no supieron a quién iba a llamar.
Fue
como alguien que ha marcado el número de la única voz amiga
y oye tan sólo la voz de un disco que le dice: WRONG NUMBER
O como alguien que herido por los gansters
alarga la mano a un teléfono desconectado.

Señor
quienquiera que haya sido el que ella iba a llamar
y no llamó (y tal vez no era nadie
o era Alguien cuyo número no está en el Directorio de Los Angeles)

contesta Tú el teléfono!

 

 

"Hollyood is a place where they'll pay you a thousand dollars for a kiss

and fifty cents for your soul"

 

Marilyn Monroe

 


Escrito por Alba às 02h40 AM
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Do Capitulo 6...

" ... atraindo-se e rejeitando-se, como é necessário quando não se quer que o amor termine em cromo ou em romance sem palavras"

Julio Cortazar em O Jogo da Amarelinha   

 

Escrito por Alba às 01h50 AM
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Tarde&Cedo

quem sabe não seja tarde,
e eu ainda possa morder tua pele imaginada branca,
colada na minha
seguramente morena;
ou
talvez não seja dia de sorte, previsto no biscoito chinês, e
o avião atrase, ou chova de madrugada e meu fusca não arranque;
e te percas, procurando meu endereço
-ou te aches em outro mapa, que não este que te dei...
...
seria hoje, o dia de me ver, conhecer, saber...?
quem sabe o dia, a hora, o minuto certo de me telefonar;
- explica aí: porque nunca me acerta em casa?
ou
quem sabe eu nunca saiba o sal da tua língua,
a se distrair em palavras soltas que não estas que se atam
em metáforas de selecionar dizeres,
em arremedos de versos livres, presos à tua lembrança
que não sei, nunca vi...
apenas ouvi.
mas talvez seja apenas tarde...

albanegromonte

Escrito por Alba às 01h37 AM
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De ti

entre as notícias loucas que povoam jornais&TV, eu antecipo teu sorriso e só assim, posso continuar o dia que mal começou num sinal fechado com um pivete me ameaçando através da película escura que encobre os vidros do meu carro. não me assustei quanto devia, pois o tormento dos dias que se seguem são tão claramente violentos que tudo já parece trivial por baixo dos meus cílios. liguei o rádio e ouvi uma canção do Chico que fala de um amor guardado através dos tempos, a ser descoberto por escafandristas do futuro. pensei em nós e nessa ausência de tudo que é normal que nos acompanha... não sei teu cheiro, não me conheces o hálito. queria tocar tua pele, teu braço e peito de remador. queria minha cabeça no teu ombro e minha voz reconhecida no teu ouvido. ah, mas eu também queria tuas mãos torturando minha pele, encontrando as cicatrizes da alma e da palma da minha mão, onde um dia a cigana te leu na minha vida: quando tudo parecesse deserto e findo. ponto e vírgula para dizer que sim, já sei como te ver através dos minutos poucos que tenho de ti. estou de malas prontas e o navio me espera, pra cruzar o atlântico, através de mares&ares, até te chegar e encontrar em meio a uma orgia de palavras&gentes que nem sei se irás me reconhecer: eu uso óculos, não sei se sabias, e mal enxergo sem eles, ou preciso estar nua para poder ver o que me passa através do desejo e da dor desta saudade tensa e insana que me corrompe os dias e sóis, atravessando minha carne feito lança de herói, ou suspiro ventania de faca de atirador de circo que amador que é me atinge coração adentro te encontrando deitado sobre a minha nuca, sobre minha longa cabeleira com mechas castanhas douradas pelo sol da minha metrópole cravada entre dois rios e que proclama a fome e a dor de ser pobre num país pobre, católico por invasão e incrédulo de tudo ao saber de mim e de ti, assim tão absolutamente desconhecidos e amados, e desejados e queridos... ah, meu rei, se um dia cruzar contigo na saleta de um aeroporto de uma pequena cidade no Japão, eu te reconhecerei. mas e tu? saberás que sou eu aquela que exala rosas em cada passo, mas que acende um cigarro atrás do outro enquanto fustiga as páginas de um livro de poesia e marca com caneta lilás o que acha mais bonito pra amanhã ou depois te repetir através da galáxia láctea ou azul que é a cor do meu jardim, que por hora não aflora pela imensa falta que faz esta tua voz quente aqui no meu labirinto de ouvir.

albanegromonte, in Jornal da Praça # 35 (maio 2005)

 

ph EBarrox

Escrito por Alba às 01h31 AM
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08/04/2006


Folie

acordada, estava dormindo. caminhou com pés descalços pelo chão frio da casa. abriu a porta dos fundos, desceu escadas, atravessou portão e pairou cor púrpura na avenida calma àquela hora da madrugada, ultrapassando os sinais amarelos e brilhantes. um guarda cético que passava naquele instante, viu aquela mulher pendurada em nada, com pés brancos de plantas sujas, cabelos negros, olhos abertos e fechados, como se fosse possível tudo num só olhar , flutuando em cores pálidas, em perfumes secos. coçou os olhos, o guarda, fez o sinal da cruz e jurou nunca mais beber. pelas nuvens carregadas da noite sul americana, pingavam gotas vermelhas de chuva. coágulos. e ela, desceu à calçada, ajeitou as alças da camisola e pôs-se a andar até a praia. ouviu sussurro da Rainha do mar, que dizia que voltasse, e dos raios que cortavam o céu ensanguentado, ouvia a espada da Rainha da tempestade, cortar os paralelepípedos à sua frente, criando vãos e pequenos abismos, atrasando seu passo pra ver se amanhecia, e a criatura não conseguisse atravessar estas paredes da sua inocente loucura. mas como quem joga amarelinha, ela pulava sorrindo em contralto, cada pedaço de chão aberto. uma criança chorou ao longe, um gato atravessou-lhe o caminho e se enroscou em suas pernas tentando fazê-la cair. e de joelhos, ela lhe deu o seio. ele bebeu seu néctar lácteo e saiu feliz, esquecido da sua missão. e a chuva vermelha continuava sobre a cidade, sobre as pontes, rios e overdrives. e enquanto o flash de um fotógrafo andarilho iluminava as letras do jornal passado, um pastor de ovelhas saiu de um poema com seu rebanho e atravessou a rua que a separava do mar. e como se fosse bandeira hasteando-se, ela solene subiu em um poste e volteou as lãs que se soltavam dos animais em fila dupla. o Cristo que trazia no umbigo, arrancou-se da cruz e com as mãos feridas transformou em brasas seus olhos acordados que dormiam. mas ela chorou lágrimas de rio que é água doce, e se achou de novo a voar. e na areia pousou. primeiro um pé, depois o outro, e o corpo todo inteiro a sonhar. deitou-se na areia macia, olhou pro céu que se alaranjava que nem a cor do girassol que o pintor sem orelha um dia falou numa canção que em vez de nome, tinha número e dizem, que seu autor se foi, mas um poeta outro dia tomou vinho com este mesmo menino que tocava piano, junto a uma lareira e com um cachorro aos pés. parece então que não morreu. uma estrela-do-mar, caminhou até ela, e cochichou algo no seu ouvido. e ela num salto de trapezista, sumiu no primeiro raio de sol que secava os coágulos da chuva que se ficaram nas folhas e árvores, e ressurgiu na própria cama, envolta em lençóis de cetim, com os pés descobertos imaculadamente brancos. em sonho sorriu um sorriso quase feliz de quem recebeu carta de longe. seu respirar ritmou-se com o canto do rouxinol que pousou na janela. uma violeta se abriu, o galo cantou, o vento assanhou as páginas de um livro de poesia. e o dia se anunciou com a batida de asas de um colibri que por ali estava, tentando avisar que a vida venceu.

albanegromonte, 30 de janeiro de 2oo6, a trinta minutos da zero hora.



Homenagem implícita:
Win Wenders, Fernando Pessoa, Van Gogh, Mozart, Frida Kahlo, Chico, Iemanjá, Iansã, JM Restivo Braz, Adélia Prado e Eduardo Barrox.

Escrito por Alba às 03h05 PM
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04/04/2006


Mi poema de abril

 

Picoteando la cáscara
de algún viejo recuerdo
con la lluvia de Abril
nacerá mi poema
le pondré mil colores
       los más puros y claros
una música tenue
y el perfume de nardos.

Como una luciérnaga
brillará titilando
subirá por los aires
escapando de mi alma
se estirarán mis manos
sin poder alcanzarlo,
se quedarán mis labios
     como siempre rogando:

Que una estrella lo guíe
  que lo lleve a tu lado,
pues si tú lo encontraras,
y llegas a escucharlo
mi poema de Abril
quizá viva... hasta Mayo.

Don Ramón de Almagro

 

Escrito por Alba às 09h48 AM
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02/04/2006


Oração Beat

 


para Eduardo

"Mentes! Novos amantes! Geração louca! Descendo as pedras do Tempo. Risadas realmente sagradas no rio! Eles viram tudo! Os olhos alucinados! Os berros sagrados! Eles deram adeus! Eles saltaram do telhado! Para a solidão! Acenando! Carregando flores! Descendo o rio! Desaguando nas ruas!"
Com quantos cavaleiros se faz uma távola? Com quantos homens se faz uma geração? Cinco ou seis pessoas, que cabem numa sala de estar, constituem um exército?
Por quanto tempo se diz durar uma geração? Quantas décadas depois, ao se ver um talento nítido herdeiro daquela histórica declamação do Uivo do homem-menino&lobo embaixo da luz vaga, enquanto os ouvintes bebiam vinho de oitenta e três cents, ressurgir qual anjo de letras disformes e ilegais que se formam na mente, sem mentiras na digressão natural do conceito desfeito do que é o que não se conclama, só se difama, como se fosse no príncipio, como se San Francisco fosse aqui... talvez o outro Francisco, que corta o sertão do Brasil... mas nem lá chega a informação deste grito abuso de poesia narrada, complexamente absurda que rompe grilhões de métrica, pontuação e sequência.
O anjo que cai, grita e lança flecha de heroína na veia do demente mendigo que dorme na calçada da Igreja; e o Padre (Santo Padre!), vira a cabeça, vomitando a hóstia consagrada com asco da fedentina que vem dos trapos do bicho que há por trás do homem caído na frente da casa de Deus. E Deus não estava em casa pra abrir as portas quando o mendigo estendeu as mãos e o Padre escarneceu da flecha fincada em sua veia, sem saber que era um anjo que enviava estas setas-missivas -catástrofe dia&noite aos heróis daquele Planeta amargurado que se chamava Terra. "Poetas são amaldiçoados, mas não são cegos". E o cheiro de gás e a black rain caindo sobre a tranquila Hiroshima transformada em rosa pelo sopro do dragão ocidental que tinha o nome da mãe, que abençoava em seu cantinho o parir da bomba maldita sobre os olhinhos enviesados da criança que gritava: "Mamãe está tão quente aqui, e eu não vejo nada". Mas essa história veio antes que o grito compassado do bater beat dos corações de cavaleiros apocalípticos que se todos unificados cabiam numa mesa de bar vagabundo na Rota 66, nas páginas de um livro escrito em três dias, num urro de pantera ou num rabo de raposa que envolve o globo terrestre...imagina se deteriam o Leviatã que habitava suas próprias mentes florescentes de palavras e sons e imagens... ah, mas então era tudo tão inverossímil que até o jovem Rei Lagarto se vestiu de couro e proclamou nas três línguas que os súcubos falam, que havia um jardim muito bonito e que se percebia melhor se se ouvisse Carmina Burana ou Albinoni por trás... e cantando alto e declamando em voz baixa fez voltar da África o poeta desiludido que não se acreditava mais capaz de escrever e mostrou pra ele, que a tal geração comportada num sofá, era o resultado das suas viagens francesas ao Inferno.
Foi assim que da mistura de tudo. Uma costeleta aqui, uma camiseta ali, um grito, um orgasmo, um bêbado, uma meia de seda rasgada, um tapa na cara, o repúdio da elite, o poeta francês, o ídolo de rock, o professor frustrado, Paris em festa, cubismo, surrealismo, Picasso, um poeta canhoto, uma peruca, um par de óculos de aviador, um solo de sax, um negro cantando godspell, uma branca rosnando um blues nas derivações latinas, uma girafa cega, um livro do escritor argentino, um tango na parede, uma carnificina, um tiro no ouvido, uma poeta que se queima e incendeia a própria beleza, um retrato na parede, um sussurro de leão enjaulado, uma outra poeta que se joga inteira no gás da cozinha e frita os sonhos de ser feliz, como bolinhos de chuva que a tia das montanhas ensinou a fazer, a doença nova que matou os imorais que ousaram romper os grilhões do certo&errado, o ornitorrinco sem orelhas, o metrô assustado, a nuca do eletricista latino com a jaqueta errada e com visto vencido, o duelo dos titãs patéticos na TV, o talento histriônico do político que envergonhava e agora dignifica, a palavra criada, jogada na sarjeta do entedimento, o filósofo rosnando das teorias banalizadas no programa de entretenimento, a empregada doméstica ganhando sózinha o prêmio da loto e morrendo atropelada na saída do banco, o operário em construção sem proteção voando pelos ares e virando samba-enredo do próximo carnaval, o lixo salvador de vidas, o catador bebendo o resto da Pepsi no monturo e dizendo numa careta que prefere Coca-Cola, o cigarro que mata e gera empregos, o presidente viajante, o outro que pensa que o mundo é um video game, a atriz de cinema de sandália havaiana, a princesa que morreu, o conto de fadas sem final feliz, o médico surdo, o sangue na boca do vampiro, a boneca sem braços nas mãos da garotinha que chora lágrimas de barro pela face que a sociedade sujou, a inocência perdida, o grafite da revista virando movie, blow up. clic!... Marlon Brando, Brigite Bardot, bicho de pêlo pelado em meio à neve, James Dean, NY, selvas de concreto renascendo nos labirintos que Teseu não consegue entrar, Minotauros, Ulisses, Tróia, Cruzadas, Inquisição Santa queimando bruxas inocentes...
Foi assim que surgiu o conceito beat que não tem mais começomeio&fim depois que este século se iniciou e todo o passado foi igualado ao presente&futuro, ficando todas as marcas indeléveis, marcas de água, fogo e ar, dos inventores de 50, dos inspiradores desde os rupestres e dos novos influenciados e influentes categóricos na arte de dizer não a todas as convenções e falta de liberdade.
Pois ser beat é bater na cara da falsa moral e consciência, é amargar a dor de ser poeta no mundo concreto e ácido e sorrir com ironia de tudo isso, sabendo que beat é só um grito solto dentro da alma que corre além do corpo e do sangue contaminado pelo Tempo.
Aparentemente sou alguma espécie de agente de outro planeta. Mas não tive as minhas ordens decodificadas ainda".

albanegromonte, agosto de 2005


* citações de versos da geração beat, homenagem subliminar a Rimbaud, sensações diante de documentário sobre o holocausto no Japão, CPI, cena vista na saída de casa, ouvindo The Doors lembrando que Jim se dizia o Rei Lagarto, tentando dizer o quanto gosto desta linguagem e enfim agradecendo ao Eduardo por me iniciar nos caminhos da beat generation.

Kerouac, beat poet

Escrito por Alba às 01h47 AM
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Frank O'Hara

Gosto muito da literatura beatnik. Este poema, pra mim é soberbo.

Uma Coca-cola com Você

é ainda melhor que uma viagem a San Sebastian, Irun,Hendaye, Biarritz, Bayonne
ou que ficar enjoado na Travessera de Gracia em Barcelona
em parte porque nessa camisa laranja você parece um São Sebastião melhor e mais feliz
em parte porque eu gosto tanto de você, em parte porque você gosta tanto de iogurte
em parte por causa das tulipas laranja fluorescente contra a casca branca das árvores
em parte pelo segredo que nos vem ao sorriso perto de gente e de estatuária
é difícil quando estou com você acreditar que existe alguma coisa tão parada
tão solene tão desagradável e definitiva como estatuária quando bem na frente delas
na luz quente de Nova York às quatro da tarde nós estamos indo e vindo
de um lado para o outro como a árvore respirando pelos olhos de seus nós

e a exposição de retratos parece não ter nenhum rosto, só tinta
de repente você se surpreende que alguém tenha se dado ao trabalho de pintá-los
olho
pra você e prefiro de longe olhar para você do que para todos os retratos do mundo
exceto talvez às vezes o Cavaleiro Polonês que de qualquer maneira está no Frick
aonde graças a Deus você nunca foi de modo que eu posso ir junto com você a primeira vez
e isso de você se mover tão bonito mais ou menos dá conta do Futurismo
assim como em casa nunca penso no Nu Descendo a Escada ou
num ensaio em algum desenho de Leonardo ou Michelangelo que costumava me deslumbrar
e o que adianta aos Impressionistas tanta pesquisa
quando eles nunca encontraram a pessoa certa para ficar perto de uma árvore quando o sol baixava
ou por sinal Marino Marini que não escolheu o cavaleiro tão bem
quanto o cavalo acho que eles todos deixaram de ter uma experiência maravilhosa
que eu não vou desperdiçar por isso estou te contando

Frank O'Hara

(tradução de Luiza Franco Monteiro)

 

 

 

Escrito por Alba às 01h41 AM
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Sacrifício


pra te fazer feliz...
eu me viro pelo avesso e me transformo na tua atriz preferida.
dou cambalhotas, faço estrelas
transformo em golfinhos os flocos de nuvem do céu da tua janela
mudo o cenário do filme, da novela, do desenho animado.
convido teus poetas pra conversar conosco no cair de uma tarde que tinja de
azul
o amarelo do sol da minha cidade
que não viste por fechar os olhos a meu querer.
aprendo a tocar piano, bailar, voar trapézios e domar leões.
por ti, corto os cabelos
pinto as unhas de negro e visto jeans rasgados nos joelhos.
por teu amor,
eu faço a transamazônica a pé e sem cantil,
largo os empregos
viro sem-teto, sem-terra... só não fico sem teu amor.
por teu querido sorriso a soar nos meus tímpanos,
eu deixo de ouvir música alto, de tomar banho quente no verão,
engraxo os sapatos de todos os italianos do Braz.
por ti, eu deixo de fumar, tomar vinho nas madrugadas, comer chocolates e ver filme de terror na TV.
por teu amor eu fico careca, ando pelada de bicicleta pela Paulista, subo em postes, arranco erva daninha dos jardins de alá.
por um olhar teu mais demorado
eu me finjo de morta
faço comercial de banco,
me visto de marrom
assisto a show de marionetes, vestida de branca-de-neve
viro bola de lã na boca do teu gato,
chiclete na tua língua
que tanto quero morder um dia

albanegromonte

 

 


Escrito por Alba às 01h36 AM
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para quem se sabe meu Beija-Flor

(para Beija-Flor)

Lembrei agora, enquanto a nuvem invisível do meu novo perfume envolvia meu corpo metido num doll de seda amarela, do nosso primeiro olhar... meus cabelos ao vento de uma cidade qualquer dos Estados Unidos e o teu, como sempre tão ferozes, por trás das lentes abusivas de um retratista atormentado pelo fantasma de Besson. Click! As palavras foram pra lá e pra cá nas nossas bocas, feito chocolate em boca de criança. E eu quase te amei naquele instante. Mas estava apressada, aprendia os detalhes tortuosos de escrever sem caneta, sem papel. E quis te escrever um poema que falasse do quanto queria te ter ao meu alcance. E o fiz. Não sei se ainda o tens, pois não disse que te pertenciam aquelas palavras todas tão caóticas. Mas continuei a escrever tudo para teu olhar, e um dia, reconheci meu pulso, num dos teus insanos textos. Chorei. Foi mais fácil então, dizer de um daqueles meus escritos... foi pra ti. Pontapé de campeão. Meu gol, foi te ver sem jeito, feito menino que és. E aí, todos os fios de seda dos teus cabelos, se desvencilharam da maravilha que é o duvidar e reconheceram meu sentimento. Sei que te quero agora, não sei se amanhã permanecerei nesta espera de te tocar com as mãos que por hora te imaginam nas noites solitárias que antecedem os dias tenebrosos. O que sei, é que estarei sempre a te buscar nestes espaços de qualquer link, pra te dizer assim meio sem jeito, que preciso do teu sorriso aqui no meu rosto e do teu beijo bem na minha boca que sorri de quase tudo que dizes... Preciso te dizer que pichei teu muro com minha letra que nunca viste e assinei com meu codinome. Beija-flor. Tenho que dizer, que era eu, a mulher nua que tocava tua campainha enquanto dormias profundamente em outros braços... Então, o que esperas para tomar o primeiro trem que vem pra minha cidade? Vou te aguardar, com minha bicicleta carregada de margaridas e te levar sem mala, pro meu abrigo secreto, onde nada, nem ninguém nos encontre, até que se sacie esta incrível vontade de te ter.

albanegromonte

Escrito por Alba às 01h27 AM
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Ressurreição


Amor sempre e quando Amor
que com suas garras afiadas multiplica a dor
Retorna à minha caótica mente
Dobra-me os joelhos do lado do coração
Torna-me pavio humano a queimar seu fogo interminável

Amor sempre e quando Amor
que brota da pele, entra pela veia...
Vem com seus laços e me prende de novo à vida
Quero mais uma vez o gosto de ser
Sentir saudades, refletir nos olhos o caleidoscópio do seu arco-íris.

Amor sempre e quando Amor
A romper barreiras, quebrar vidraças, desequilibrar razões
Toma de mim os estilhaços da alma cansada
Refaz-me a humanidade
Toca com suas asas mágicas os meus pés tão presos à Terra
Volteia-me cabeça, ombros e tudo o mais
Cansei de carregar tanto vazio.

Amor sempre e quando Amor
A me inspirar poéticas, a me fazer sorrir de nada...
Habita este coração que já foi seu.
Quero que vá comigo à festa, à farra, à cama
Quero contar-lhe pros amigos
Quero vagar em suas dores anexas.
Beber o deserto sabor no cálice de prata
Quero o anel no dedo da alma
E pertencer à vida.
Quero escrever um livro
Ter um filho
Plantar um pé de você-perfeito
E depois, só depois
morrer ...

albanegromonte

 

Escrito por Alba às 01h23 AM
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Na validade

um dizer pra quem sabe


apenas uma palavra para definir este bem-querer tão louco.
eu preciso dessa palavra, para definir o pulo que dá meu coração dentro da camiseta, quando te ouve ou lê, tanto faz, já que pra te ver vai levar um tempo.
só sei que é verdade que eu estava nua quando teu toque de telefone bateu na minha pele ainda molhada, e mais ainda ficou quando meus ouvidos captaram esta mansidão da tua voz.
ai, que desaguou um mar em mim, e minha alma cantarolou um tango, que é a dança mais parecida com fazer amor que conheço.
então derretida por este sentimento que nem ouso dar nome, fechei os olhos e vesti a velha camiseta da Minnie, enquanto te ouvia falar dos bichos&coisas da tua vida.
como quis te abraçar, beija-flor.
deitei na cama e nem te contei do calor que me subia pelas pernas e seguia corpo a fora contigo por dentro.
aí, me imaginei bem do teu lado, segurando tua mão, te olhando bem nos olhos e te dizendo um a um os poemas&prosas que fiz pensando em ti.
desejei ser teu último beijo.
teu bicho querido.
eu quis, hoje, sorrir sempre contigo e ser teu amor.
...
mas não tive coragem de dizer.

albanegromonte

Escrito por Alba às 01h17 AM
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01/04/2006


Eu por mim


nasci pelo avesso.
segurei nos cornos uterinos da minha mãe, e não tinha quem me arrancasse dali.
só a ferros. como de fato aconteceu.
depois veio meu nome.
o avesso de mim. parece brincadeira: a brancura que ele inspira, contra a cor da minha pele.
um dia, brincando embaixo da mesa, ouvi meu pai dizer que queria mesmo que eu fosse menino.
explicados então, meus brinquedos esquisitos: carrinhos, revolveres, estilingues, pião, bola-de-gude...
era o avesso do sexo.
então fui pra escola e cada vez mais avessa, conversava com amigos invisíveis
vivia perdida nos livros
e nada sabia da tabuada.
avessamente cresci, e aprendi a gostar de bonecas.
aí meu irmão nasceu, e virei mãe aos sete anos.
nas horas de folga, cantava com o cabo da vassoura fazendo as vezes de microfone
e tendo como platéia, Sansão (o papagaio) e o gato da vez (foram tantos, e morriam tragicamente, sendo logo substituídos para que meu choro não acordasse a vizinhança e o bebê)
cresci mais um pouco, vivi meu primeiro amor com o filho da professora de Francês
e aprendi que homem não presta desde pequenininho.
fiquei avessa ao amor, e meti a cara nos livros (até de Matemática)
virei estrela do colégio
meus pais me mandaram pra estudar na Capital com 13 anos e cheirando a talco.
levava uma boneca escondida na mala, as fotografias dos gatos, e O Grande Gatsby para ler na estrada.
era o avesso das revistas da moda.
e ainda gostava de Chico Buarque&cia, ouvia Beatles e Genesis
quando o in, era Michael Jackson
aos 13 anos, avessei a adolescência
e tive que ser  mulher sem nem ter menstruado.
aprendi a endurecer, sem perder a ternura, quando soube que existia Guevara.
chorava escondida no banheiro e escrevia longas cartas pra ninguém.
e a solidão me parecia tão natural...
entrei na faculdade aos 16.
tive que avessar os longos cabelos com franja, os vestidos floridos, os ursinhos de pelúcia
e aprendi a fumar, a beber e a passar noites em claro filosofando em alemão.
neste tempo, fui desaprendendo a desamar.
 e me apaixonei tantas vezes
(ilusões avessas de quem não tinha crescido por dentro)
era virgem quando minhas amigas faziam abortos.
e avessei tanto a verdade, que acabei trepando sem lembrar que era a primeira vez.
não foi nada romântico.
e fui sofrendo os avessos da vida
até me dizerem que era uma cidadã.
passei a me sustentar, pagar impostos e saber o valor de um dia de trabalho duro.
e assim o avesso de mim desde o começo
começo a entender agora a dicotomia que em mim existe.
quando sou doce, lambuzo tudo a meu redor
quando quero bem, arranjo oito braços de prender,
quando penso que perdi, choro e ninguém liga
quando me sinto forte, todos se encantam
quando piso fundo, o poder exala do meu sorrir
quando estou triste, tudo ao meu redor fica escuro
mas se dou uma gargalhada, os girassóis giram ao sabor do vento e faz-se a luz
quando me amo, mesmo sendo avesso dos desejos que penso ter
o homem que está a meu lado se joga a meus pés
e quando me atiro nos seus braços
ele reluta e se afasta
então meu avesso é que é direito.
o que vejo no espelho não é reflexo
é a realidade.
eu sou avessamente deliciosa
quando me permito ser o que vejo através das minhas próprias retinas
e hoje, já usando truques de beleza para indefinir a idade real
sei que serei sempre a mesma menina que avessa de tudo
segurou firme nos cornos uterinos da mãe
e de lá só saiu a ferro!
uma guerreira. valente e vitoriosa mulher
que não tem vergonha de aprender como se goza.
 
albanegromonte
 
 
ph EBarrox
 

Escrito por Alba às 11h46 PM
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Oração a São Jorge

Desespero que dá esta lonjura que me afasta de ti. Não há trem, metrô, ônibus ou avião que alcance tal distância. Pois além da dita, existe a barreira a ser destruída sem trombeta de Josué, pela impureza da minha alma que rende a São Jorge, o santo banido, homenagem minha em poemas, camisetas e penduricalhos no pescoço. Valei-me então São Jorge. Larga dessa lança, ressucita o Dragão e me deixa sentar no dorso do bicho que ele cruza esse caminho de tanto céu e mar, e de quebra, soltando fogo pelas ventas pode derreter a tal muralha, que afinal de contas só é forjada em aço de solidão.
Me leva daqui, pois a minha solidão é que tenta agora se armar pra uma guerra onde somente eu serei perdedora, mesmo se vencer. E no meio dessa agonia toda que lhe conto, acha um jeito dele gostar de mim assim mesmo do jeito que sou: esparramada, exagerada, jogada aos pés, com oito braços e dez bocas (que ainda são poucos pra tanto carinho guardado neste peito incauto).
Mas se não tiver mesmo jeito dele me querer, inventa o revés da oração, e me faz esquecer os dias perdidos em poemas, lágrimas e cantigas de ninar pra menina que mora na minha alma.
Se é que ainda não entendeu meu Santo guerreiro: estou pedindo pra ser feliz!
 
albanegromonte
 

Escrito por Alba às 11h31 PM
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Borges e o Amor



É o amor. Terei de me esconder ou fugir.
Crescem as paredes de seu cárcere, como em um sonho atroz. A bela máscara mudou, mas como sempre é a única. De que me servirão meus talismãs: o exercício das letras, a vaga erudição, o aprendizado das palavras que usou o áspero Norte para cantar seus mares e suas espadas, a serena amizade, as galerias da Biblioteca, as coisas comuns, os hábitos, o jovem amor de minha mãe, a sombra militar de meus mortos, a noite intemporal, o gosto do sonho?
Estar contigo ou não estar contigo é a medida de meu tempo.
O cântaro já se quebra sobre a fonte, já se levanta o homem à voz da ave, já escureceram os que olham pelas janelas, mas a sombra não trouxe a paz.
É, eu sei, o amor: a ansiedade e o alívio de ouvir tua voz, a espera e a memória, o horror de viver no sucessivo.
É o amor com suas mitologias, com suas pequenas magias inúteis.
Há uma esquina pela qual não me atrevo a passar.
Agora os exércitos me cercam, as hordas.
(Este quarto é irreal; ela não o viu.)
O nome de uma mulher me delata.
Dói-me uma mulher por todo o corpo.

Jorge Luis Borges, em "O Ameaçado".

Escrito por Alba às 09h38 PM
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Nós dois, sutilezas inversas...

(este é para quem sempre se soube minha paixão)

 

 

ele é ponto de exclamação,
eu pergunto o tempo todo.
ele, abre janelas quando amanhece,
eu gosto de escuro.
ele não acredita em Deus,
eu trago uma cruz no umbigo.
ele deixou de fumar faz tempo,
eu compro cigarros em caixas.
ele, bicho-preguiça,
eu, enguia elétrica.
ele vive numa cidade invernada,
na minha faz sol o tempo todo.
ele é bem resolvido,
eu faço terapia.
ele fala com cachorros,
eu adoro gatos.
ele é silêncio que tudo diz,
eu falo pelos cotovelos.
ele coleciona jornais,
eu gosto de revista em quadrinhos.
ele tem paciência
eu queria tudo pra ontem.
eu faço juras,
ele promete.
eu atravesso o céu para encontrá-lo,
ele me espera sentado.
eu tenho medo de baratas
ele assassina sapos com fogo,
eu procuro suas mãos
ele me beija os pés.
eu choro com tudo,
ele ri de qualquer coisa.
eu sou signo da água
ele é da terra.
eu chego sempre atrasada,
ele nunca perde a hora.
eu sou feita de emoções
ele é a pura razão.
eu tenho medo de morrer
ele diz que vai viver pra sempre.
eu sinto frio de dia
ele toma banho de madrugada.
ele sabe jogar xadrez
eu fico na amarelinha.
eu nasci depois
ele veio antes pra reconhecer a trilha.
eu uso três relógios,
ele nunca pergunta a hora.
eu joguei fora meu passado,
ele guarda fotografias.
ele é um blues
eu sou tango.
eu sou espevitada,
ele, tímido.
eu tenho ciúmes do que seus olhos vêem,
ele não se importa se eu andar nua.
eu sou a quinta avenida
ele, a champs elisee.
eu ouço música no carro,
ele dirige olhando a estrada.
eu tenho medo de velocidade,
ele já foi piloto de corrida.
ele nunca me escreveu um poema
eu já lhe mandei uma carta de amor pelo correio.
eu rezo pra São Jorge que a gente nunca se separe,
ele diz que o Dragão é um tipo de divindade
eu acordo tarde,
ele dorme cedo.
eu sou um soneto,
ele, um haicai.
eu gosto de cor-de-rosa
ele não sabe sua cor preferida.
eu digo que ele é meu namorado
ele disse que a sala da sua casa é minha.
eu tenho um vidro de perfume na bolsa,
ele cheira a sabonete.
eu ando olhando pro chão,
ele mandou a Lua para mim.
eu sou louca pela voz dele,
ele me pede pra cantar uma canção.
eu peço beijos o tempo todo
ele me beija além do tempo.
eu digo que ele sabe tudo
ele me ensina a ser feliz.
eu quero estar sempre junto
ele me chama pra morar com ele.
eu digo que estou apaixonada,
ele pergunta que veneno eu coloquei no vinho, pra ele ficar assim.
eu sou um bicho tonto,
ele se embriagou no meu olhar.
e nós dois nessa roda de diferentes semelhanças,
capturamos o tempo perdido
e vamos por aí, felizes por tanto

albanegromonte

Escrito por Alba às 09h08 PM
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Outros caminhos

 

O Avesso da estória, ou como se perder num sonho de criança.

 

Bem que eu disse. Eu disse. Não faça este caminho que o lobo te pega. Mas tu , com teus games modernos, achaste que poderia com ele. E com os outros todos... Fuzis, metralhadoras, armas virtuais, golpes orientais, slow-motion, efeitos especiais... nada disso te valeu quando a Rainha de Copas abriu o espelho de Alice e te convidou pra brincar... é... até que não foi mal. Em algumas jogadas, desfizeste o jogo e salvaste esta cabecinha de vento, embora se bem lembrares, foi com truques do velho jogo de damas que te ensinei ainda menino, que conseguiste driblar a poderosa e maldosa mulher.
Mas confessa aqui... tremeste diante da bocarra do lobo, anh? Por pouco não viraste almoço. Não fosse o patinete de Chapeuzinho, largado ali no canto da sala, não poderias ter fugido tão rapidinho até o outro lado da floresta. Admito que dei risadas com a cara de bobo que o lobo ficou, ao te ver partindo em pé naquela geringonça de madeira... acho que nunca mais ele vai querer almoçar garotos.
E a bruxa? Eu disse, não disse? Se encontrares uma casa toda feita de chocolates, não te aproximes. É perigoso! Mas não me deste ouvidos e devoraste a porta feita de sonho -de- valsa. Que susto, hein? De repente, a velha e carcomida bruxa surgiu do nada, e BUM! Te jogou no panelão. E agora? Pensaste, quando viste que teus artefatos up to date, estavam molhados e inativos... "Senhora Bruxa, não seria melhor me engordar mais um pouco? Estou tão magrinho..." Ufa! Ainda bem que lembraste como João e Maria se safaram...
E na caverna dos Quarenta ladrões? Que seria de ti, sem a corda de pular, que se enganchou milagrosamente na pedra que fecharia para sempre os teus sonhos de menino?
Temi por ti, quando o gigante do pé-de-feijão tateou as paredes do castelo, quase tocando os lençois amarrados por onde descias (em que aventura de Rin Tim Tim nós vimos isto?).
E a madrasta de Branca de Neve, que na falta do que fazer, queria te envenenar com uma maçã? Sorte que te ensinei a lavar as frutas antes de comer (agora pensando... se Branca de Neve soubesse disso, teria poupado um bocado de trabalho ao Príncipe, não era?).
E o feitiço do sono de 100 anos? Que idéia a tua, diante da incompatibilidade eletrônica do teu artefato anti-magia sonífera? Fechar os olhos, tampar os ouvidos e o nariz, não tocar em nada... e! O feitiço não te atingiu nenhum sentido e pudeste sair em paz daquele castelo mal assombrado.
Não gostei que quisesse contar ao Patinho Feio que ele era um cisne. Ainda bem que teu tradutor de linguagem animal não converteu naquela atmosfera. Foi engraçado, reconhece: Tu piavas como um pinto recém-nascido, e o patinho balançava a cabeça para lá e para cá, como quem não está nem aí...
O jeito foi nadar até o outro lado da história para conhecer a bailarina que namorava o soldadinho de chumbo... achei bonita a tua tentativa de impedir a separação deles. Mas sabes que eles ficam juntos no final, não é?
E quando Rapunzel teve os cabelos cortados? Ainda bem que não conveceste o Príncipe a subir naquela mini-escada rolante... O que seria desta história depois?
Eu disse, não disse?
Não entra neste livro que não sei posso te tirar daí antes que cresças.

... era uma vez um garoto que não acreditava em contos de fadas e achava que com seus modernos artefatos de video games, poderia vencer todas as batalhas criadas pelos contadores de histórias, como seu avô, um velhinho maluco que desafiava o tempo há muitas e muitas gerações na sua família... mas isto já é outra história...


albanegromonte

 


Escrito por Alba às 08h52 PM
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Dis-mois comment


e se já perdi a noção da hora, quando chegam as madrugadas e só tua lembrança se faz presente nesta mente que desmente todo dia, o diagnóstico do terapeuta maluco descalço que me atura a toda quarta-feira, na hora do rush, fim do dia, quando todos se dirigem velozmente pra casa e eu sigo chorando pra mais uma noite de trabalho. meu coração quase derrapa na curva molhada a mais de cem, e bate rebatendo todo este bem-querer amaldiçoado pelo Deus de barbas brancas fora do molho, pois não teve nem coragem de me salvar quando mergulhei nas tuas palavras e em definitivo a diagonal do meu caminho se cruzou na tua esquina e eu me perdi, me afoguei, me deixei levar qual peixinho de aquário pelas patas de um gato negro que vi na TV.
quadro a quadro vou escrevendo nossa história pelo ponto de vista de quem está totalmente apaixonada e se recusa a ler nas linhas das mãos que o destino fica do outro lado da cidade, e não do País.
é bom que o pneu do meu carro esteja quase furando com um prego enferrujado há dias encrustado em sua pele negra, pois só isso e o IPVA atrasado me impedem de seguir esta estrada finita que termina no teu quintal, onde patos e galinhas brincam com girafas e leões amestrados.
uma voz gutural sai da minha alma e dizendo ser meu ego, se introduz na minha criação divina e me crucifica em cravos floridos que colho nos jardins do hospício onde te conheci, dizendo que este é o grande erro da minha curta e cega vida. não, este ego não me fará te esquecer, até que te encontre nesta ou em outra dimensão, planeta ou vida, que são tantos miligramas de alcool e nicotina na minha cabeça que já nem acredito se isso acontecerá fora da minha imaginação e destes sonhos que tenho todas as noites em que consigo dormir e acordo abraçada com o vazio dos lençois de algodão tão brancos e virginais quanto esta rosa que te envio através do verso que o poeta ressucitado num cantor de rock, disse ser pros amantes do mundo inteiro.
rosa selvagem, orquídeas negras, escravas brancas se despindo ante a câmera de TV, travestis loiros e belos como deuses do Olimpo caídos na Terra por engano. tudo isso na avenida que cruza meu quarto quando fecho olhos.
minha cidade embaixo de chuva. e o sol se enganando achando que amanhã queimará as peles da patricinhas de plantão nas areias do mar tropical que se balança diante da janela da minha janela que é a janela da minha alma.
mas nesta noite eu não quero te falar. esta noite eu queria mesmo era te beijar num beco escuro, sussurrando frases num francês bonito e sensual que te enlouquecesse mais que as minhas mãos na tua nuca e minha pele macia a se colar suada na tua camisa aberta a espera das minhas unhas pintadas em vermelho carmim, qual meus lábios inflamados de desejo, qual as mechas que pintei nos cabelos pra chamar tua atenção.
então fecho a cortina invisível deste olhar enviesado sobre tua vida e me volto para meu mundo desértico e caótico, onde sonhar é impossível, pois o concreto armado da vida, torna flácida qualquer atitude lírica.
e feito pacote esquecido em sala de espera de aeroporto, me deixo ficar aqui, até que o ponteiro do relógio dê a volta completa na via-láctea e me encontres vestida de branco, cabelos soltos, um livro na mão e uma adaga de fogo na outra, pronta pra queimar todo nosso passado.

albanegromonte

Escrito por Alba às 08h47 PM
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Raridade

noite

explosão de bombas artefatos nucleares
ou fusão de cores mágicas
ou sonhos dourados e esperanças meio mortas pela forme
e um gato miando no telhado de uma noite de lua cheia
e milhares de máquinas de escrever fazendo barulho
e o rosto de um anjo pálido perdido num beco escuro
entre trevas perto de uma lata de lixo
e um sorriso de criança que sempre esteve morta
que não sabia de destinos
e nem que poderia ter direito à fome saciada
e nem de amanhãs

expresso fantasma das três e meia da manhã (1975),
edição esgotada

Eduardo Barrox
 

Escrito por Alba às 08h26 PM
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Ela

 

 
 
Quando ela nasceu
O sol brigou com o vento
A noite brigou com a chuva
O ferro brigou com o sangue
E o dia clareou
Quando ela nasceu
 
Quando ela cresceu
O mar virou fumaça
A carne virou flor
O bambu virou estrada
E a tarde escureceu
Quando ela cresceu
 
Quando ela sonhou
O desejo quebrou a rima
O jasmim brotou na lama
A espada voou no raio
E a vida se espantou
Quando ela sonhou
 
Quando?
Ela nasceu?
Ela cresceu?
Ela sonhou?
Quando ela viveu!
 
JP Veiga

Escrito por Alba às 08h07 PM
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Destarte


orquídeas de pano se acumulavam nestes anos de procuras vãs,
e eu, desavisada do que era prazer, limitava ao gesto vago, ao suspiro fugaz,
o que se chamava desejo.
mas hoje, sem aviso ou preparo
as orquídeas desvestiram os molambos
e se abriram em luz&cor
e como se não fosse eu,
mulher feita
desvirginei o prazer da rosa ensanguentada no lençol de seda branca.
descobri quase tardiamente
o que existe por trás do silêncio do tempo que se revigora
na carne, na pétala desfolhada, no perfume dos cabelos lavados
da flecha em arco
sobre meu corpo suado
descobrindo antes do apocalipse
que sou mulher.

albanegromonte

ph EBarrox

Escrito por Alba às 05h19 PM
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Poesia portuguesa contemporânea

Claro que se tem medo que alguém nos entre pelos olhos.
Mas podes arder. Para a tua temperatura sou mercúrio,
linhas de mão, lábio e sopro. Atravesso-te porque me atravessas
e onde somos corsários rendemo-nos ao encanto da
devolução.

Tu e eu à porta de um lugar que vai fechar tudo numa árvore.
Aqui onde os minutos são a rua em que nos sentamos toda
a tarde à espera do silêncio, onde o teu corpo pesa a
medida exacta do meu desejo.

Sou um animal. Necessito diariamente da transfusão de uma
enorme quantidade de calor. Tocas-me?

Vasco Gato

Escrito por Alba às 04h16 PM
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