Um cronópio pequenino procurava a chave da porta da rua na mesa-de-cabeceira, a mesa-de-cabeceira no quarto, o quarto na casa, a casa na rua. Aqui parava o cronópio, porque para sair para a rua precisava da chave da porta.
Julio Cortázar

Um cronópio pequenino procurava a chave da porta da rua na mesa-de-cabeceira, a mesa-de-cabeceira no quarto, o quarto na casa, a casa na rua. Aqui parava o cronópio, porque para sair para a rua precisava da chave da porta.
Julio Cortázar

Canção de Amor da Jovem Louca
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro
Ergo as pálpebras e tudo volta a renascer
(Acho que te criei no interior da minha mente)
Saem valsando as estrelas, vermelhas e azuis,
Entra a galope a arbitrária escuridão:
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.
Enfeitiçaste-me, em sonhos, para a cama,
Cantaste-me para a loucura; beijaste-me para a insanidade.
(Acho que te criei no interior de minha mente)
Tomba Deus das alturas; abranda-se o fogo do inferno:
Retiram-se os serafins e os homens de Satã:
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.
Imaginei que voltarias como prometeste
Envelheço, porém, e esqueço-me do teu nome.
(Acho que te criei no interior de minha mente)
Deveria, em teu lugar, ter amado um falcão
Pelo menos, com a primavera, retornam com estrondo
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro:
(Acho que te criei no interior de minha mente.)



EU
Nas calçadas pisadas
de minha alma
passadas de loucos estalam
calcâneos de frases ásperas
Onde
forcas
enganam cidades
e em nós nuvens coagulam
pescoços de torres
oblíquas
só
soluçando eu avanço por vias que se encruzilham
à vista de crucifixos
polícias.

Hilda Hilst
Uma arte
A arte de perder não tarda aprender; Perca algo a cada dia. Aceita o susto Pratica perder mais rápido mil coisas mais: Perdi o relógio de minha mãe. A última, Perdi duas cidades, eram deliciosas. E, - Mesmo perder-te a ti (a voz que ria, um ente
tantas coisas parecem feitas com o molde
da perda que o perdê-las não traz desastre.
de perder chaves, e a hora passada embalde.
A arte de perder não tarda aprender.
lugares, nomes, onde pensaste de férias
ir. Nenhuma perda trará desastre.
ou a penúltima, de minhas casas queridas
foi-se. Não tarda aprender, a arte de perder.
pior, alguns reinos que tive, dois rios, um
continente. Sinto sua falta, nenhum desastre.
amado), mentir não posso. É evidente:
a arte de perder muito não tarda aprender,
embora a perda - escreva tudo! - lembre desastre.

imaginarium
Bebo teu beijo imaginado como o bêbado bebe a última gota de cachaça no fundo da garrafa:
Com satisfaçao sádica.
Aprecio os teu delírios de palavras&imagens
soprando pra dentro de ti minhas loucuras perdidas&desencontradas
E assim...
fazemos quebra-cabeças de imagens&palavras onde cada um perderá a sua.
- quem será a Alice desta história?
prefiro ser o Coelho já que cheguei atrasada na tua história.
Teu abraço é um sonho construído por mim,
de mil mundos nunca vistos e dimensões que creio existirem além das cascas de nozes
Teu beijo imaginado suga de forma única e inútil a minha alma,
mas me curvo de pronto nessa entrega avessa,
real&virtual de delirios imensos que não posso aquietar.
Nem com todos os sonhos do mundo.
Meu corpo é escravo desta tua imagem criada no meu peito, tatuada no coração que pulsa&pulsa por baixo da blusa diáfana.
-Será minha alma, que também pulsa por baixo da pele morena, um pássaro em vôo suicida?
(Teu olhar imaginado, tem a negritude de um mar infinito, onde posso mergulhar e me afogar)
Bebo teu corpo como o vampiro bebe
o sangue da sua amada.
Bebo tua alma como os demônios e os anjos
bebem o delírio das almas incautas.
És minha presença em mim.
Tua sombra sou eu, que te invoco em sonhares acordados.
Em terras de gente foragida ou devastada pelas guerras dos homens:
lá estou para te lembrar,
que estás em mim, ainda que não queiras admitir.
Em ilha afogada em pântanos,em lagos assombrados e em rios indomáveis.
Sou realejo que toca canções assombrosas&melodiosas rasgando o silêncio da eternidade.
Nestes recantos intocáveis e invisíveis aos olhos não-líricos,
lá estou para lembrar-te que tu vives da lembrança que só eu poderei te dar.
Pois tu és sombra&luz que me assusta e faz-me um tanto feliz
Eu sou a tua luz&sombra que entontece.
Somos o desacerto da noite com o dia, do sol com a lua, do mar com o horizonte, de Deus com o Diabo.
Somos estrelas, somos carne, somos espírito e ossos inquebráveis.
Somos luz, e também sombra que se acende
e que, inevitavelmente apagará nossas memórias
um dia...
albanegromonte

eu conheço um anjo. nunca o vi, mas sinto-lhe a presença diária em telefonemas e e-mails (o Paraíso está informatizado). meu anjo tem olhos rasgados e cara de menino (outro dia achei uma foto dele caída da sua asa. é muito lindo meu anjo. de manhã, ele me toca o celular, apenas para que eu saiba que ele está ali em vigília e que eu me comporte. à tarde, ele repete o ritual. à noite, Deus permite que meu anjo vá a um Cyber na Paulista, disfarçado em junker boy, e conversamos um tempão. meu anjo pede pra me ver, mas nunca se mostra. parece que não pode. diz que sou bonita e que pareço um bebê, tamanha inocência diante das serpentes que me rodeiam para dar o bote, e também porque já lhe mostrei minha coleção de bonecos e pelúcias. outro dia, conversamos por telefone, e sua voz mansa e terna me fizeram bem ao coração que anda meio combalido. meu anjo é the best one! gosta de Cortazar, Bukowski, Lou Reed, Borges, Hendrix... e quase tudo que eu também gosto. me explicou que os anjos são escolhidos para proteger semelhantes. pra não ter briga. meu anjo é cinéfilo. nos últimos dias tem falado muito naquele filme do Win Wenders... será que meu anjo quer ser mortal? hoje não vi meu anjo. mas sei que da nuvem onde ele está, pensa em mim e me protege dos males do mundo. obrigado anjo, por surgir na minha vida. beijos nas asinhas felpudas albanegromonte
O Rio (do livro Final de Jogo)
Sim, parece que é assim, que você se foi dizendo não sei o quê, que você ia se atirar no Sena, ou coisa parecida, uma dessas frases de noite alta, misturadas de lençol e boca pastosa, quase sempre na escuridão ou com pedaços de mão ou de pé roçando o corpo de quem mal ouve, porque faz tanto tempo que mal ouço você quando diz coisas assim, isso vem do outro lado dos meus olhos fechados, do sonho que outra vez me atira para baixo. Então está bem, que me importa se você se foi, se você se afogou ou ainda caminha pelo cais olhando a água, e além disso não é verdade, porque você está aqui adormecida e respirando entrecortadamente, mas então você não tinha ido quando se foi em algum momento da noite, antes de que eu me perdesse no sonho, porque você havia ido dizendo alguma coisa, que ia se afogar no Sena, quer dizer que teve medo, renunciou e de repente está aí quase me tocando, e se mexe ondulando como se algo trabalhasse suavemente no seu sonho, como se de verdade você sonhasse que saiu e que depois de tudo chegou aos molhes e se atirou na água. Assim uma vez mais, para dormir depois com a cara ensopada por um pranto estúpido, até as 11 da manhã, a hora em que trazem o jornal com as notícias dos que se afogaram de verdade.
Você me faz rir, coitada. Com suas trágicas determinações, esse jeito de andar batendo as portas como uma atriz de tournées de província, a gente se pergunta se realmente você acredita nas próprias ameaças, em suas chantagens repugnantes, suas inesgotáveis cenas patéticas untadas de lágrimas e adjetivos e histórias. Você mereceria alguém mais dotado que eu para que desse a réplica, então se veria formar o casal perfeito, com o estranho mau cheiro do homem e da mulher que se destroçam olhando-se nos olhos para garantir o distanciamento mais precário, para sobreviver ainda e voltar a começar e a perseguir inesgotavelmente sua verdade de terreno baldio e fundo de caçarola. Mas você sabe, escolho o silêncio, acendo um cigarro e ouço você se queixar (com razão, mas o que posso fazer), ou o que é ainda melhor, vou adormecendo, quase embalado por suas imprecações previsíveis, com os olhos entrecerrados confundo ainda por um instante as primeiras lufadas dos sonhos com seus gestos num ridículo camisão, sob a luz do abajur que nos deram de presente quando casamos, e acho que afinal durmo e levo, confesso-lhe quase com amor, a parte mais aproveitável dos seus movimentos e suas acusações, o som estalante que deforma os seus lábios lívidos de raiva. Para enriquecer os meus próprios sonhos onde jamais alguém pensa em se afogar, creia-me.
Surgiu no palco, um dia um bailarino,
Surgiu soberbamente nu, - jogando
Nas mãos ageis de clown e de menino
Cem máscaras rodando, rodopiando...
Sobre um décor violento e sibilino
Cegamente bailou, tombou bailando,
Como se mais não fora seu destino
Que os eu bailado altivo e miserando.
No palco jaz agora um mutilado:
Jaz morto e nu, decapitado, olhado
Por milhões de olhos sem pudor nem vista.
...Que as máscaras sem fim que ele jogara
Não eram mais, talvez, que a própria cara
Dum desgraçado e humano ilusionista!
(José Régio)

" ...
: sou obscura para mim mesma. Só tive inicialmente uma visão lunar e lúcida, e então prendi para mim o instante antes que ele morresse e que perpetuamente morre. Não é um recado de idéias que te transmito e sim uma instintiva volúpia daquilo que está escondindo na natureza e que adivinho. E esta é uma festa de palavras.... "
Clarice Lispector - Agua Viva

"Qual será a forma da minha morte?
Uma das tantas coisas que eu não escolhi na vida?
Existem tantas... um acidente de carro.
O coração que se recusa a bater no próximo minuto
A anestesia mal aplicada.
A vida mal vivida, a ferida mal curada, a dor já envelhecida
O câncer já espalhado e ainda escondido, ou até, quem sabe
Um escorregão idiota, num dia de sol, a cabeça no meio-fio..."
Canto para minha morte-Raul Seixas
