letrasINvento


03/06/2006


Amor



Desalento entre instantes de sorrir.
Espinho moderado na garganta que esfola mas não mata. Gato com rato na boca (já viu?), parece que brinca com a vítima, mas olhando bem é tortura que aprisiona, solta, empurra, traz para si, afasta, morde, mastiga, sopra, descansa, olha de novo, pega, tritura e enfim dá o suspiro com olhos virados para o céu, e misericórdia de deuses desconhecidos, a patada final que apaga a última estrela de diamante que brilhava no olhar do rato agora purificado.
O gato era quem o rato amava e não sabia, em sua pureza dos que mal nasceram, mal desconfiando que ele, o rato, era a presa; e o gato, na essência natural das leis que regem a natureza, o predador.
Descansa agora o gato, deitado em almofadas de cetim, lambendo pêlos, esperando a próxima entrada.
O rato perdido entre cometas suicidas e densas florestas de musgo e magnólias descoloridas, ainda sofre e chora a perda do amor.

 

albanegromonte

 

Escrito por alba N. às 09h11 PM
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Oito Linhas



abandonado assim nos meus braços, ele diz que volta. acordado, sai devagar e delicado como quem pisa num coração. surto de ternura, e ele cobre meu corpo nu, dá comida pro gato, e se vai. meio da noite ou meia-noite? tanto faz, se o que importa mesmo é que ele não estará comigo quando o sol invadir o meu quarto, queimando minha perna que insiste em sair do lençol, queimando as lembranças todas da noite e secando a lágrima tola que me abre os olhos todas as manhãs. mas chega a noite, e eu nunca acredito no que vi.

 

albanegromonte

Escrito por alba N. às 08h51 PM
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To my baby

alegria essa que me dá

o som do teu sorriso atravessando o oceano caindo no tapete do meu quarto

vem com ele,

teu olhar enviesado

o traço dos teus lábios encantados

a impressão do teu abraço ainda não sentido

-só pressentido-

através das ondas da praia que vão da minha casa pra tua,

do meu bem-querer pro teu coração

da nossa espera

incansável espera de nós dois

(agora vai!)

por este nosso grande amor

 

albanegromonte

 

 

 

Escrito por alba N. às 08h49 PM
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Fendas



Flor em brasa queima a folha. Serena folha que não sabia dos calores que se davam nessas horas. Língua farta onde se farta de seiva doce e macia. Onda de desejo vendaval de cores e sonhos nunca planejados. Ela. Em pele, carne e osso, sobre seu corpo mais carne que quando não era batizada. Pecado extremo, que deus nenhum há de perdoar. Vigia da porta do inferno chama em canções medievais - venha... solte as amarras que a prendem... Cabelos se enrodilham em pêlos curtos e os seios duros e tensos se encontram em harmonia.Sintonia, sinfonia de quereres e arderes em claves de Mi e Sol. Sol que esfria ao vê-la em agonia de não temer o que deve... Escultura viva em meio ao desatino que é sempre ver o que não se quer, o que não se quis, o que não se acreditou ser capaz de existir... e ela existe. E dentro de você ela roda, que nem pião em mão de menino abençoado. Ela deita com você e acorda seus sonhos de mulher pacata, trazendo suores e prazeres, dando-lhe a mão que simboliza o tudo. E tudo é ela. Ela que se invade de luzes, calores e dores. Ela que quer sair do seu sonho, para viver em você no dia que amanhece através da cortina puída do que você quis ser um dia. Ela é você ontem, quando a dureza da vida engatava rés e primeiras avançando sinais e conceitos. Ela existe e mora ao lado da sua alma envelhecida pelos nãos que a vida lhe deu. Ela é o fim e começo de tudo. Dê-lhe a sua mão e todo sim será seu. E ele não terá mais vez neste sofrer em vão.

 

albanegromonte

Escrito por alba N. às 08h34 PM
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Ressurreição


Amor sempre e quando Amor
que com suas garras afiadas multiplica a dor
Retorna à minha caótica mente
Dobra-me os joelhos do lado do coração
Torna-me pavio humano a queimar seu fogo interminável

Amor sempre e quando Amor
que brota da pele, entra pela veia...
Vem com seus laços e me prende de novo à vida
Quero mais uma vez o gosto de ser
Sentir saudades, refletir nos olhos o caleidoscópio do seu arco-íris.

Amor sempre e quando Amor
A romper barreiras, quebrar vidraças, desequilibrar razões
Toma de mim os estilhaços da alma cansada
Refaz-me a humanidade
Toca com suas asas mágicas os meus pés tão presos à Terra
Volteia-me cabeça, ombros e tudo o mais
Cansei de carregar tanto vazio.

Amor sempre e quando Amor
A me inspirar poéticas, a me fazer sorrir de nada...
Habita este coração que já foi seu.
Quero que vá comigo à festa, à farra, à cama
Quero contar-lhe pros amigos
Quero vagar em suas dores anexas.
Beber o deserto sabor no cálice de prata
Quero o anel no dedo da alma
E pertencer à vida.
Quero escrever um livro
Ter um filho
Plantar um pé de você-perfeito
E depois, só depois
morrer ...

 

albanegromonte

 

Escrito por alba N. às 08h32 PM
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Ele sempre está quando me perco

Não sei quem sou, que alma tenho.
Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo. Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe (se é esses outros).
Sinto crenças que não tenho. Enlevam-me ânsias que repudio. A minha perpétua atenção sobre mim perpetuamente me ponta traições de alma a um caráter que talvez eu não tenha, nem ela julga que eu tenha.
Sinto-me múltiplo. Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas.
Como o panteísta se sente árvore [?] e até a flor, eu sinto-me vários seres. Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente, como se o meu ser participasse de todos os homens, incompletamente de cada [?], por uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço.

 

 

Fernando Pessoa

 

Escrito por alba N. às 08h25 PM
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